terça-feira, 17 de outubro de 2017

SEDIÇÃO


Acusados de sedição, Jordi Sànchez, presidente da Assembleia Nacional Catalã, e Jordi Cuixart, presidente de Òmnium Cultural, cabecilhas do processo independentista, foram presos em Barcelona e transferidos para uma prisão de Madrid. A detenção de ambos reveste a forma de ‘prisão incondicional’, sem possibilidade de fiança. Os dois são acusados de desrespeito à Coroa e ao Estado espanhol, patrocínio do referendo do passado dia 1 e incitamento à violência.

A imagem é do jornal catalão La Vanguardia. Clique.

CALAMIDADE PÚBLICA

Em dois dias, o país foi assolado por 722 incêndios: 523 no domingo e 199 na segunda-feira. Morreram 36 pessoas, estando feridas 51 e desaparecidas 7. Animais mortos são às centenas. A Norte do Tejo, dezenas de povoações evacuadas e casas reduzidas a cinzas. Por junto, cerca de 60 mil hectares consumidos pelo fogo, incluindo 80% do pinhal de Leiria. Foi gravemente atingida e danificada a central de biomassa da EDP em Mortágua. Mais de 20 fábricas são agora um monte de escombros. Catorze estradas e duas autoestradas tiveram que ser cortadas. Sejamos claros: Portugal não tem, nunca teve, efectivos e meios suficientes para fazer face a uma tragédia desta dimensão.

Mas, no lugar do primeiro-ministro, eu anteciparia para hoje o conselho de ministros extraordinário agendado para o próximo sábado.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

ESTRADAS INTERDITAS


A quem puder interessar, o quadro da GNR com indicação das 16 estradas cortadas por força dos incêndios que assolam o país. Clique na imagem.

ORGULHOSAMENTE SÓS?


Quem responde pela destruição da economia catalã?
Clique na imagem.

NEM SIM NEM SOPAS


Depois de arrastar a Catalunha para um referendo inconstitucional, e de encenar o espectáculo do passado dia 10, Puigdemont não é capaz de assumir os seus actos. À pergunta de Rajoy sobre se declarou ou não a independência unilateral, responde com um pedido de reunião urgente. Devia tê-lo feito há dois meses. A carta que enviou a Madrid é o retrato de alguém que deu um passo maior que a perna.

Clique nas imagens para ler as duas páginas.

FOGOS

A situação dos fogos é muito grave, com 27 mortos confirmados até ao momento, cerca de 60 feridos em estado grave, pessoas desaparecidas, aldeias evacuadas, estradas cortadas e centrais da EDP atingidas.

domingo, 15 de outubro de 2017

MOGADÍSCIO

O atentado que hoje teve lugar na capital da Somália provocou mais de 300 mortos e cerca de 500 feridos, números que devem aumentar pois os escombros ainda estão a ser removidos. O ataque foi reivindicado pelo grupo islamista al-Shabaab. Modus operandi: um camião com cem quilos de explosivos fez-se detonar junto a um hotel que desabou.

sábado, 14 de outubro de 2017

HAPPY VALLEY?

Como vi a entrevista de Sócrates em diferido, julguei que o aparecimento inopinado da série policial Happy Valley fosse defeito da gravação.

Só hoje soube, pelo Observador, ter-se tratado de ‘erro técnico’ da RTP. Há coincidências tramadas! Logo no meio de uma das respostas mais esperadas do antigo primeiro-ministro. Paulo Dentinho, o director de informação, desculpa-se com o prolongamento da entrevista. A série teria sido activada automaticamente no momento previsto.

Tudo isto pode ser verdade, mas o público tem direito a um esclarecimento formal da RTP e a um pedido de desculpas do senhor Dentinho.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

SÓCRATES NA RTP

Acabo de ver em diferido a entrevista que Vítor Gonçalves fez hoje à noite, na RTP, a José Sócrates. O antigo primeiro-ministro rebateu, ponto por ponto, as perguntas do jornalista. Sabemos que Sócrates é um orador imbatível, mas hoje não se limitou a dar asas à retórica. Pelo contrário, mostrou documentação oficial que contradiz as alegações do MP nos assuntos em pauta. Vítor Gonçalves é suposto ser o melhor entrevistador da RTP, sendo de admitir que fez o trabalho de casa. Então, convinha, para a próxima, que a RTP arranjasse alguém com outra estaleca. Infelizmente, a entrevista terminou com a pergunta abominável: «Como é que o senhor vive, como é que o senhor paga as suas despesas?» Sócrates foi liminar: «Vivo daquilo que é a minha pensão como deputado. Essa pergunta é indigna e não o dignifica.» Assim não vamos lá.

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 57,5%. A diferença entre o PS e o PSD é agora de 13%. Sozinho, o PS ultrapassa a PAF em 7%. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

ROTH & TELLER


Hoje na Sábado escrevo sobre O Escritor Fantasma, de Philip Roth (n. 1933), um dos mais importantes autores americanos contemporâneos. O Escritor Fantasma inaugurou a série de Nathan Zuckerman, composta por nove romances publicados entre 1979 e 2007. Zuckerman, alter-ego do autor, começa a compor aqui o seu sulfuroso retrato da América. Diz-se muitas vezes que um livro vale pela primeira frase, e este corrobora a lenda: «Era a última hora de luz de uma tarde de dezembro, há mais de vinte anos…» Foi a tarde em que Zuckerman encontrou Lonoff. Nathan Zuckerman, o narrador, é um escritor em início de carreira apostado em pedir o «patrocínio moral» de Emanuel Isidore Lonoff, um par consagrado. O encontro de ambos suscita uma digressão pelas origens de Roth (a comunidade judaica de Newark), vários aspectos das obras respectivas, alfinetadas no meio literário, a moda dos questionários e, como sempre, muito sexo. O virtuosismo é de regra: «trocar insultos em pleno cio não era o meu afrodidíaco preferido…» Tudo se passa em Nova Iorque, nos fifties, e ambos são judeus. Tratando-se de um microcosmo tão peculiar, a paleta de temas é dominada pelos avatares da literatura e as idiossincrasias identitárias dos judeus. O Holocausto não é esquecido. A saga de Anne Frank vem à baila, a partir da encenação do Diário na Broadway, mas o imaginário de Roth causou atrito com os judeus novaiorquinos, enfurecidos com a licença poética de fazer de Amy Bellett, uma protégé de Lonoff, a verdadeira Anne Frank. Dito de outro modo: Anne Frank teria sobrevivido ao tifo contraído no campo de Bergen-Belsen, vivendo com um nome falso nos Estados Unidos (o Diário perderia todo o interesse se soubessem que estava viva). Com essa convicção, Zuckerman prolonga e acrescenta a odisseia de Anne Frank, numa longa narrativa pontuada de detalhes heterodoxos. A heresia não foi esquecida, e o anunciado Pulitzer foi parar às mãos de Norman Mailer. De nada lhe valeu insistir na dicotomia entre autor e narrador. O prémio chegaria dezoito anos mais tarde, por Pastoral Americana, o sexto romance de Zuckerman. Cinco estrelas. Publicou a Dom Quixote.

Escrevo ainda sobre Nada, da dinamarquesa Janne Teller (n. 1964). Publicado em 2001 e destinado a adolescentes, gerou controvérsia na Escandinávia, tendo sido retirado das bibliotecas das escolas do ensino secundário. Mas o ministério da Cultura atribuiu-lhe o prémio de Literatura Infantil, e a situação foi sendo revertida. Porquê a controvérsia? Porque o livro faz luz sobre a imensa crueldade das crianças. Pierre Anthon, filho de hippies retardados, é o herói deste Satyricon para menores. Nada vale a pena é o seu lema e, nessa medida, cada um deve desfazer-se de algo que tenha significado para si. A purga existencial começa com tralha doméstica, mas depressa atinge o paroxismo. Se uma aluna quer cortar o dedo indicador de um colega, corta-se o dedo ao colega. Se outra quer exumar um bebé, faz-se a exumação do cadáver. Se outra quer decapitar uma cadela, serra-se a cabeça do animal. E assim sucessivamente, com envios a Nietzsche para caucionar a “criatividade”. Os rapazes colaboram. Janne Teller é uma economista que trabalhou nas Nações Unidas e na Comissão europeia e viveu em vários países. Escreve romances e ensaios. Três estrelas. Publicou a Bertrand.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

SÓCRATES ACUSADO

O Ministério Público concluiu a acusação da Operação Marquês. Os arguidos são 28. Segundo uma nota da Procuradoria-Geral da República, o antigo primeiro-ministro é acusado de 31 crimes: dezasseis de branqueamento de capitais, nove de falsificação de documentos, três de corrupção passiva de titular de cargo político, e mais três de fraude fiscal qualificada. Os crimes teriam sido cometidos entre 2006 e 2015.

Lembrar que uma acusação não é uma sentença judicial transitada em julgado, e que todos os acusados se presumem inocentes até prova em contrário.

DO PLENÁRIO PARA O PÁTIO


Na sala do Plenário, Puigdemont fez um discurso alambicado. No pátio, assinou a declaração de independência unilateral da Catalunha: «Contituimos la República catalana, como Estado independiente y soberano, de derecho, democrático y social Terá sido forçado pela CUP, dizem uns. Terá sido forçado pelo Junts pel Sí, dizem outros. Foi tudo combinado antecipadamente com Carme Forcadell, a Presidenta del Parlament, dizem muitos. Seja como for, o Presidente da Generalitat cobriu-se de ridículo. Pior: deu de bandeja a Rajoy o pretexto para accionar todos os mecanismos de ocupação da Catalunha.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

A FOTO


Momento em que Puigdemont assina a declaração de independência unilateral da Catalunha. Clique no Twitter da Generalitat.

DUI EM LETRA DE FORMA


A independência unilateral da Catalunha foi proclamada e suspendida ao fim de 25 segundos. Excerto (em castelhano) da Declaração formal. 

«[...] CONSTITUIMOS la República catalana, como Estado independiente y soberano, de derecho, democrático y social.

DISPONEMOS la entrada en vigor de la Ley de transitoriedad jurídica y fundacional de la República.

INICIAMOS el proceso constituyente, democrático, de base ciudadana, transversal, participativo y vinculante.

AFIRMAMOS la voluntad de abrir negociaciones con el estado español, sin condicionantes previos, dirigidas a establecer un régimen de colaboración en beneficio de ambas partes. Las negociaciones deberán ser, necesariamente, en pie de igualdad. [...]»

O documento tem 61 subscritores: o Presidente da Generalitat, deputados de Junts pel Sí, representantes da CUP, membros do Governo catalão e os independentistas da Mesa del Parlament.

Imagem: 1.ª página da Declaração. Clique.

DUI PROCLAMADA E SUSPENSA


Depois de falar 20 minutos, Puigdemont declarou o direito da Catalunha à independência sob a forma de República. Mas suspendeu (adiou) os seus efeitos por duas semanas, para, diz ele, tentar a via da negociação com Madrid. Chama-se a isto um balde de água fria. Rajoy não se comove com o delay e considera que houve uma declaração unilateral de independência, facto que obriga o Governo espanhol a agir em conformidade.

Clique na imagem do jornal catalão La Vanguardia.

O DIA DA DUI?


Quando forem cinco da tarde em Portugal, seis em Espanha, Puigdemont vai ao Parlamento catalão «explicar la situación política», o que quer que seja que isto signifique. Toda a área circundante está vedada ao trânsito e ao público desde as primeiras horas da manhã, embora os partidos separatistas tenham convocado uma manifestação para o local. Como se vê na imagem, o bloqueio da Ciutadella é da responsabilidade dos Mossos d'Esquadra.

Entretanto, o valor das empresas que já transferiram as suas sedes para fora da Catalunha ultrapassa 78 mil milhões de euros (o resgate a Portugal foi de 70 mil milhões). Nada será como dantes. O futuro dos filhos dos separatistas vai ser pior, e Puigdemont terá de responder um dia por isso.

Clique na imagem.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

ESPANHA


Quatro dias em Espanha: bandeiras com a Coroa nas varandas e fachadas dos prédios em Badajoz, Zafra, Córdova e Sevilha. Sentimento geral contra a secessão da Catalunha. Vox populi: Rajoy tem sido frouxo. Amanhã, provável declaração unilateral de independência. Mas, a fazer fé nas notícias, jornais catalães incluídos, ninguém se entende na Generalitat. Ramón Tremosa, catalão, eurodeputado do PdeCAT, defende que Puigdemont proclame a DUI amanhã, mas seguindo o modelo da Eslovénia, ou seja, proclama e suspende até reconhecimento internacional (a Eslovénia esperou cerca de um ano). Aconteça o que acontecer, a Catalunha já está mais pobre: todos os dias, bancos e grandes empresas retiram as suas sedes da Catalunha. Os primeiros foram o CaixaBank e o Banc Sabadell. Sobre o referendo: fazendo de conta que respeitou todas as regras, e sabemos que isso não aconteceu, lembrar que a participação foi de 42% dos recenseados, significando que 58% não quiseram manifestar-se. Convinha reflectir neste detalhe.

Foto: lula empalada. Comi-a eu, no EntreOlivos de Córdova. Clique.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

TO BE OR NOT TO BE


Carles Puigdemont falou e não pronunciou uma única vez a palavra independência.

Sobre Felipe VI, afirmou: «Así no, usted ha decepcionado a muchos catalanes. Gente que esperaba de usted una apelación al diálogo y a la concordia

Contudo, o porta-voz da Generalitat, Jordi Turull, afirmou esta manhã que a declaração unilateral de independência será proclamada 48 horas após a publicação, prevista para o próximo sábado, do resultado oficial do referendo. Nestes termos, segunda-feira, dia 9, haverá DUI. Haverá?

VALE FERRAZ & McBRIDE


Hoje na Sábado escrevo sobre A Última Viúva de África, de Carlos Vale Ferraz, pseudónimo literário de um antigo oficial do Exército (nascido em 1946) que é também investigador de história contemporânea portuguesa. O autor acaba de publicar mais um romance, desta vez centrado na figura de uma mulher que terá sido agente dupla na província congolesa do Catanga, antes, durante e após a breve secessão liderada por Tshombé. Estamos portanto no território de eleição do autor: África e conflitos independentistas. De uma bibliografia mais vasta, destacaria dois títulos: o romance Nó Cego (1983), obra de referência sobre a guerra colonial, e o ensaio histórico Alcora. O Acordo Secreto do Colonialismo (2016), escrito em parceria com Aniceto Afonso. Vale Ferraz tem uma escrita escorreita e um traquejo natural para diluir na ficção alguma da informação “classificada” que esteve por trás de factos reais, enriquecendo o romance com essa mais-valia. Numa breve nota introdutória, não assinalada como tal, o autor socorre-se da historiadora Dalila Cabrita Mateus para caucionar a existência da enigmática Madame X, «nome de código de uma informadora residente em Leopoldville…». Madame X foi uma portuguesa que emigrou para o antigo Congo Belga nos anos 1950, fixando-se na região do Catanga, e em África permaneceu quase toda a vida, malgrado os solavancos da História. No livro, Madame X chama-se Alice Oliveira ou, para os mercenários da secessão do Catanga, Kisimbi. O acto derradeiro foi partir para a Nova Zelândia, onde morreu. A trasladação do seu corpo para Portugal envolve peripécias que servem de fio condutor do plot. A partir de Leopoldville, Madame X terá alertado a Pide e as autoridades angolanas para a iminência do massacre (oitocentos colonos brancos e milhares de negros chacinados por guerrilheiros da UPA em toda a Baixa do Cassange) iniciado na noite de 15 de Março de 1961. Não obstante a folga do aviso, uma semana, mais coisa menos coisa, Luanda não reagiu. A posteridade regista esses dias de horror e não é a primeira vez que a ficção portuguesa faz deles cenário do inenarrável. O mérito de Vale Ferraz consiste em coser as várias pontas da guerrilha nacionalista com os interesses da geo-política internacional. Quatro estrelas. Publicou a Porto Editora.

Escrevo ainda sobre Pequenos Boémios, o segundo e mais recente livro de Eimear McBride (n. 1976). Depois do êxito retumbante da estreia, Eimear mantém a peculiaridade da sintaxe, próxima da escrita automática dos surrealistas ortodoxos. Isso pode desconcertar o leitor, embora a maior parte das vezes ele acabe “capturado” pelo fluxo de consciência da autora. A transgressão mantém-se de regra. O ménage à trois descrito nas páginas 143-44 é um bom exemplo, até de como as elipses narrativas não afectam o discurso (e, neste caso concreto, nem sequer diminuem o teor de erotismo). Tal como fez a autora na adolescência, a narradora é uma rapariga de dezoito anos que vai para Londres estudar teatro, envolvendo-se emocionalmente com um actor mais velho. Decorrendo a acção nos anos 1990, a tentação da leitura auto-referente é grande. O romance lê-se como um diário de sexo, escrito em jargão cru (vénia à tradução), de modo a pôr teenagers em ponto rebuçado. Ao contrário do que vem exarado na badana, Eimear não nasceu na Irlanda. Nasceu na Inglaterra, em Liverpool, e só aos três anos de idade foi para a Irlanda. Em 1993 voltou para Inglaterra, onde vive. Três estrelas. Publicou a Elsinore.