sexta-feira, 29 de julho de 2016

BREXIT À MODA DELA

Os britânicos não mudam: querem comer o bolo e ficar com o bolo. Theresa May já se encontrou com Merkel, Hollande e Renzi. Mas também com Enda Kenny, o PM irlandês; Robert Fico, o PM eslovaco; e Beata Szydło, a PM polaca. A todos disse que o Reino Unido pretende continuar a usufruir das vantagens do mercado comum, mas interditar a livre circulação de pessoas. Merkel foi clara: sem livre circulação de pessoas, não há mercado comum. Por seu turno, a primeira-ministra britânica também esclareceu que não tenciona seguir o modelo norueguês. A Noruega não faz parte da UE, mas, para participar do mercado comum, permite a livre circulação de pessoas, bens, capitais e serviços.

TAMBÉM TU, FMI?

Uma auditoria independente feita pelo FMI ao resgate português (2011-15) põe tudo em cheque: o prazo de intervenção, considerado excessivamente curto; as previsões económicas; o fracasso da consolidação orçamental; a reincidência em estratégias erradas e o pacote fiscal. Passos, Gaspar e Maria Luís podem limpar as mãos à parede.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

JULIAN BARNES


Hoje na Sábado escrevo sobre O Ruído do Tempo, de Julian Barnes (n. 1946), autor que nos últimos dezasseis anos publicou quatro romances, uma colectânea de contos, um volume de memórias e outro de ensaios sobre arte. As memórias e os ensaios (Courbet, Fantin-Latour, Degas, Bonnard, Magritte, Braque, etc.) foram os temas que o absorveram depois da morte da mulher, a agente literária Pat Kavanagh. Agora chegou este novo romance, sobre o compositor russo Dmitri Chostakovich. Trata-se portanto de um romance biográfico, circunstância que não preocupa o autor nem defrauda o leitor: «Todos os romances são biográficos», disse Barnes, e o senhor de La Palice não diria melhor. A tal respeito, a Nota do Autor é de meridiana clareza. Chostakovich, o mais importante compositor da era soviética, foi um joguete nas mãos de Estaline. Logo em 1936, antes de completar trinta anos, uma ópera sua, Lady Macbeth de Mtsensk, aclamada de Nova Iorque a Buenos Aires, mas também em Moscovo e Leninegrado, desagradou ao Grande Pai da Nação. Estaline abandonou o teatro e, no dia seguinte, o Pravda deu à estampa um violento editorial: «Chinfrim em vez de música», anti-ópera para degenerados, etc. A catilinária fora redigida pelo próprio Estaline? A ortografia parecia corroborar… A partir dali, Lady Macbeth de Mtsensk seria proscrita. Chostakovich, que já vira amigos seus serem presos e fuzilados, não tinha ilusões. Com o propósito de «destruir a asfixia burguesa, o Partido tomara conta dos assuntos culturais. O editorial do Pravda tinha de ser lido como um mandado judicial. Dali aos interrogatórios da NKVD foi um passo. Em 1948, por ordem de Estaline, Chostakovich vai a Nova Iorque participar no Congresso Cultural e Científico para a Paz Mundial. Stravinski, o seu ídolo, era o alvo a abater. Recebido com empatia por punhado de intelectuais americanos («a colher de mel numa barrica de alcatrão»), a humilhação da entrevista colectiva do Waldorf Astoria foi um golpe fatal. Barnes faz um retrato extremamente subtil do compositor. Veja-se o encontro com Akhmátova. Descritos com aparente parcimónia, os anos de chumbo avançam e recuam graças à criteriosa inserção de flashbacks. A música redime tudo? Quatro estrelas.

Escrevo ainda sobre Bicha, de William S. Burroughs (1914-1997), que antes de ser escritor teve várias profissões, entre elas a de exterminador de baratas e percevejos. A seguir foi barman e outras coisas. Este homem, oriundo de famílias patrícias, neto do inventor das máquinas de calcular e escrever, formou-se em Harvard e depois foi para Viena fingir que estudava medicina. Homossexual, heroinómano desde a adolescência, dissidente da Cientologia, praticante do cut-up dadaísta, deixou uma obra extensa (ficção, ensaio) onde se destaca o romance Festim Nu, publicado em 1959. Bicha, agora traduzido, teve uma primeira versão (1952) nunca publicada. O que lemos é a versão de 1985. Oliver Harris serve-se da introdução para explicar que o livro não é consequência do assassinato da segunda mulher de Burroughs. (Em 1951, numa festa, Burroughs matou-a com um tiro no rosto. Se era para imitar Guilherme Tell, como disse à polícia, teve azar.) Foi para o México, porque sim. O livro é uma narrativa desordenada sobre o quotidiano de um homossexual freak. Em apêndice datado de 1985, Burroughs dá conta dos anos passados no México, e essa parte é a melhor do livro. Uma estrela. Publicou a Quetzal.

ASCO

Impedida de pôr no ar a tourada das sanções, a SICN promoveu ontem à noite um debate conduzido por Clara de Sousa, no qual participaram dois advogados e três jornalistas. Intuito: provar que Sócrates é responsável por toda a corrupção desde 25 de Abril de 1974. Não estou a ironizar. Um jornalista do Expresso e outro de que nunca ouvi falar, meteram tudo no mesmo saco: derrocada do BES, tranquibérnia da PT, OPA da Sonae sobre a PT, compra da VIVO, Vale de Lobo, Grupo Lena, terrenos em Luanda, PPP, Cova da Beira, Freeport, tentativa de controlo da TVI, gastos sumptuários, etc. Tipo: vamos liquidar o tipo de qualquer maneira. O paroxismo foi tal que até o Gomes Ferreira teve de pôr água na fervura, lembrando que esse conjunto de situações, a configurarem crime, não foram obra de um homem só. Afinal, onde estão os ministros, secretários de Estado, directores-gerais, autarcas, banqueiros e assessores que respondem pelos dossiers? Do lado dos advogados, João Araújo (em nome de Sócrates) e Rogério Alves (suponho que em nome da equidistância tecnocrática), houve uma tentativa de recentrar o debate, mas foi em vão. Aguentei talvez 20 minutos. Asco absoluto.

O BANDO DOS QUATRO

A decisão de não aplicar sanções a Portugal e Espanha foi tomada com o voto contra de quatro comissários: o alemão Günther Oettinger, o finlandês Jyrki Katainen, o letão Valdis Dombrovskis e a sueca Cecilia Mälmstrom. Carlos Moedas terá feito uma boa defesa das nossas razões, e faz todo o sentido que tenha sido assim, porquanto as sanções decorreriam do défice (0,2%) de 2015, ou seja, da gestão PSD/CDS, na qual Moedas teve um papel central. Dijsselbloem, ministro holandês das Finanças e presidente do Eurogrupo, ficou desapontado com a decisão, mas não participou na reunião da Comissão.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

FOI-SE O TABU


A realidade tem muita força. Notícia e imagem do Expresso. Clique.

DÉJÀ VU

A simples presença de alguém como Donald Trump nas Presidenciais americanas dá a medida da akrasia universal. Mas não é caso virgem. Quem se lembrar da campanha de 1964 tem na memória a figura sinistra de Barry Goldwater, o candidato oficial do Partido Republicano, defensor acérrimo de que as armas nucleares eram mesmo para usar. E prometeu fazê-lo contra a URSS. Goldwater tinha então 55 anos (Trump tem 70), era e voltou a ser eleito senador (Trump é empresário, sem currículo político). Os sectores moderados do Partido Republicano, que tentaram, sem sucesso, nomear Nelson Rockefeller, preferiram votar na reeleição de Johnson. É verdade que, nos últimos 50 anos, o mundo mudou muito, mas Trump não é uma novidade na vida americana. Os mais novos podem não saber da existência de Goldwater, mas já se esqueceram de Sarah Palin?

EM QUE FICAMOS?

Em 26 de Junho, Donad Tusk, presidente do Conselho Europeu, nomeou Didier Seeuws, diplomata belga, para representar a UE nas negociações do Brexit. Hoje, Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, nomeou o francês Michel Barnier como negociador-chefe da Comissão Brexit. Didier Seeuws desistiu?

NONSENSE OU ALGO PIOR?

Adel Kermiche, o rapaz de 19 anos que ontem degolou o padre Jacques Hamel na igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, obrigando o sacerdote a ajoelhar-se antes de consumar o acto, usava pulseira electrónica desde que a Alemanha o extraditou para França em Março do ano passado, quando a criatura foi impedida pelas autoridades alemãs de viajar para a Síria. Em que mundo vive a polícia francesa?

terça-feira, 26 de julho de 2016

A FRANÇA EM GUERRA


O mapa do horror em França. Imagem do Guardian. Clique para ler as legendas.

TERROR NA MISSA

Esta manhã, dois homens armados de facas, declarando-se apoiantes do Daesh, degolaram o pároco e mataram outra pessoa, tendo sequestrado mais cinco fiéis na igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray (zona de Rouen, Normandia). Entretanto, a polícia abateu-os. Hollande está no local e Valls reagiu no Twitter.

HORROR NO JAPÃO

Munido de uma faca de guerra, Satoshi Uematsu, 26 anos, entrou no Tsukui Yamayuri En, um lar de deficientes em Sagamihara, a cinquenta quilómetros de Tóquio, matou 19 pessoas e apunhalou outras 42, vinte das quais estão em estado muito crítico. Em tempos, o atacante trabalhou no referido lar, tendo tido alta de um hospital psiquiátrico no passado dia 2 de Março. Antes do ataque, o indivíduo avisou as autoridades da necessidade de exterminar todos os deficientes do país. Depois da matança entregou-se à polícia. Pronto, este é mesmo louco.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

BAVIERA, AGAIN

Desta vez foi um sírio de 27 anos, um refugiado a quem foi recusada autorização de residência na Alemanha. Tudo se passou ontem à noite, em Ansbach (onde existe uma base militar americana), uma cidadezinha colada a Nuremberga, durante um festival de música rock. O atacante deflagrou-se, ferindo 12 pessoas. O festival foi cancelado. Lembrar que, no espaço de uma semana, é o terceiro atentado na Baviera: Würzburg no dia 18, Munique no dia 22, e ontem, dia 24, em Ansbach. Do outro lado do mundo, em Bagdade, a manhã de domingo ficou assinalada por (mais) um homem-bomba que, ao deflagrar-se na Praça Aden, causou 21 mortos e cerca de 40 feridos.

sábado, 23 de julho de 2016

NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS


Fez hoje 40 anos, Soares tomou posse como primeiro-ministro do I Governo Constitucional. A efeméride foi assinalada a partir das 18:30 com uma cerimónia informal nos jardins do Palácio de São Bento, residência oficial do primeiro-ministro, António Costa, um dos oradores da sessão, juntamente com Rui Vilar e Pinto Balsemão. Comparecerem cerca de 250 personalidades, entre elas o Presidente da República, o presidente da Assembleia da República, o general Ramalho Eanes, Conselheiros de Estado, deputados, antigos e actuais ministros, Passos Coelho, etc. Internado de urgência, Jorge Sampaio não pôde comparecer. Embora convidado, Sócrates não apareceu.

Também hoje, um grupo de amigos decidiu homenagear Cavaco Silva, organizando um almoço para 80 comensais. A coincidência das datas (a homenagem a Cavaco podia ser feita em qualquer altura) fala por si. Cavaco foi convidado para a homenagem a Soares, tendo declinado com o argumento do seu próprio almoço. Marcelo passou pelo local, mas não participou no repasto. E lembrou a data de Soares. Ter tido educação em casa faz toda a diferença.

A foto é de António Cotrim, para a Lusa. Clique na imagem.

TREINO?

Quem ontem à noite passou — eu estive lá das 21:55 às 22:05 — na Praça de Alvalade, a do Santo António com o Menino ao colo, encontrou o quarteirão do McDonald’s e da ADSE cercados e interditos pela polícia. Quatro viaturas e uma dúzia de agentes à vista. O McDonald’s estava cheio e, na rua, praticamente em cima do cordão da polícia, grupos de adolescentes, à falta de caça mais suculenta, caçavam pokémons. Perguntei a um agente o que estava a acontecer: «Não podemos adiantar nada.» Tenho de tirar o chapéu ao blasé das famílias do McDonald’s e de outros restaurantes da área (cinco, num raio de menos de cem metros, sem contar com os do centro comercial do outro lado da praça). Achei aquilo muito estranho, mas devo ser eu que gosto de tudo bem explicado.

MUNIQUE


Nove mortos e 21 feridos (alguns em estado muito grave) confirmados no ataque de Munique. O atacante, David S., tinha 18 anos e dupla nacionalidade: alemã e iraniana. Através do Facebook, que utilizava com nome feminino num perfil falso, escreveu que o McDonald’s da Hanauerstraße ofereceria nessa tarde refeições grátis. Depois do ataque ao restaurante, correu para o Olympia, o maior centro comercial da cidade, situado no outro lado da rua. Antes de suicidar-se, gritou: «Allahu Akbar. Eu sou alemão.» Aparentemente terá agido sozinho, não se confirmando a existência de três atiradores.

Depois de amanhã, dia 25, começa o Festival de Bayreuth, com a estreia de Parsifal, de Wagner, numa versão de Uwe Eric Laufenberg considerada insultuosa pelo Irão.

Em poucos dias, é a segunda vez que a Baviera sofre um ataque terrorista.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

WILLIAM BOYD


Hoje na Sábado escrevo sobre Doce Carícia, de William Boyd (n. 1952). Glosando Flaubert com inteira propriedade, o autor pode afirmar: Amory Clay sou eu. Tudo começou com uma fotografia encontrada por acaso. Aquela que vemos no frontispício, uma mulher a chapinhar na água em 1928. A partir daí, Boyd construiu a intriga que dá consistência ao seu livro mais recente. De certo modo, repete o que fez com Nat Tate: An American Artist 1928-1960, biografia imaginária de um pintor abstracto. Em 1998, quando foi publicado, o livro desconcertou o milieu artístico anglo-americano. Desta vez, apesar do virtuosismo, ninguém tem dúvidas sobre o carácter ficcional da história. Criação do autor, Amory Clay, nascida em 1908, impôs-se como fotógrafa num mundo dominado por homens. Boyd criou o equivalente de Martha Gellhorn, famosa correspondente de guerra nascida no mesmo ano que a sua personagem. É impossível não sentir, no backstage, a presença de Martha Gellhorn, uma das mais notáveis e aclamadas fotógrafas do século XX. Boyd não se esqueceu dela, e de mais uma dúzia, nos agradecimentos. As fotos que intercalam a narrativa não foram creditadas, são imagens avulsas cuja função é ilustrar as memórias de Amory, uma mulher que atravessou duas guerras mundiais e viu o pai (um escritor obscuro) morrer louco. Doce Carícia é uma revisão do século: o desmoronar do mundo anterior à Primeira Grande Guerra, os intrépidos anos 1920 (os bas-fond de Berlim e Londres), os equívocos dos thirties, a Segunda Grande Guerra observada a partir da França ocupada, a hegemonia americana, a Guerra do Vietname, os sobressaltos de uma repórter na frente de combate. Extractos do diário de Amory introduzem os recuos do tempo. Boyd faz um patchwork minucioso: a informação flui com naturalidade, mas o essencial é Amory. Recorrente, o sexo é descrito com as palavras adequadas, sem nunca cair na vulgaridade ou beliscar a elegância da prosa, como demonstrado na cena em que Amory perde a virgindade: para facilitar o acto, o parceiro usa banha de porco como lubrificante. Oriunda de uma família com pretensões aristocráticas, Amory está à-vontade em todo o tipo de meio, seja o lumpemproletariado ou as classes altas. Deveras interessante. Quatro estrelas.

Escrevo ainda sobre A Rota da Porcelana, de Edmund de Waal (n. 1964). O que define um autor de excepção? Quando de Waal publicou o primeiro livro, centrado nos Ephrussi, uma família de banqueiros judeus, a questão colocou-se. E quem leu A Lebre de Olhos Cor de Âmbar ficou na expectativa de nova obra. Ela chegou agora. A Rota da Porcelana mexe directamente com a profissão do autor, oleiro e professor de cerâmica há duas décadas. Se o livro anterior era sobre os netsuke (mini-esculturas de madeira ou marfim), este é sobre o «ouro branco». A partir da história da porcelana, de Waal escreveu um livro difícil de classificar. Podemos lê-lo como monografia biográfica de Tschirnhaus, o matemático; Böttger, o alquimista que introduziu a porcelana na Europa; Espinoza e Leibniz, os grandes racionalistas do século XVII. Mas também como diário de viagem: de Jingdezhen a Londres, com passagens por Versalhes, Dresden, Plymouth, a Etrúria, a Cornualha e outras partes. Ainda como romance histórico. Uma obra perfeita sob qualquer ângulo, porque de Waal alia erudição com humor, sem nunca descurar uma escrita de indiscutível virtuosismo. Cinco estrelas. Publicou a Sextante.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

TERROR NA BAVIERA

Entretanto, em Würzburg, um rapaz de 17 anos, afegão, atacou com um machado várias pessoas que estavam na estação de comboios da cidade. Há pelo menos 20 feridos. A polícia alemã abateu o agressor.

domingo, 17 de julho de 2016

REALPOLITIK

O apoio de Obama e Merkel a Erdogan traz Nixon à lembrança. Interpelado sobre Pinochet por um jornalista acreditado na West Wing, terá dito: «É ditador? Talvez seja. Mas é o nosso ditador.» São ínvios os caminhos da realpolitik.

sábado, 16 de julho de 2016

DAY AFTER


Na Turquia, o número de militares detidos ultrapassa já os três mil. Mas também foram presos dez juízes do Danistay, um dos órgãos de cúpula da Justiça turca. Entretanto, foram emitidos mandados de captura contra 140 juízes do Supremo Tribunal (o Yargitay, ou Tribunal de Apelação), tendo sido destituídos 2.745 de magistrados. Segundo as últimas informações, a golpada causou cerca de 300 mortos e 1.500 feridos.