quinta-feira, 23 de março de 2017

RUY CASTRO


Hoje na Sábado escrevo sobre a reedição de Carnaval no Fogo, de Ruy Castro (n. 1948). Um acontecimento. O homem que escreveu a história da Bossa Nova, o biógrafo de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda, podia não ter escrito mais nada, porque as duzentas páginas em que nos “explica” o Rio de Janeiro chegam e sobram para fixar o seu nome. Publicado em 2003, Carnaval no Fogo resume a biografia da cidade desde 1555, ano em que o vice-almirante Villegagnon desembarcou na ilha de Serigipe com o propósito de estabelecer uma França Antártica na região da baía da Guanabara (a ocupação durou dez anos). Em 1565, Estácio de Sá correu com os franceses e fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, «em homenagem ao rei de Portugal e ao santo crivado de flechas». Os portugueses ficaram mas persistiu o apetite francês. No século XIX, a imigração francesa deixou marca: «Depois de Paris [o Rio] é a cidade que mais tem estatuária francesa no mundo.» Sabia? O autor não se atém à cronologia histórica. A exemplo do que faz com Ela é Carioca (1999), uma enciclopédia de Ipanema, também aqui nos dá a conhecer usos e costumes; a música popular; a arquitectura (igrejas barrocas, edifícios coloniais, art déco e modernistas, mais os «estrupícios pós-modernos»); a cultura da negritude; o boom dos anos 1930, quando foram construídos os bairros da Glória, do Flamengo, da Urca e de Copacabana; a decisão de arrasar quinhentas casas e três igrejas tricentenárias para rasgar a Avenida Presidente Vargas; personalidades como Chiquinha Gonzaga (a maestrina anti-esclavagista), Nair de Teffé (a caricaturista que casou com o marechal-presidente Hermes da Fonseca) ou Oscar Niemeyer, que em 1941 viu chumbado o seu projecto para o estádio do Maracanã; a demolição do Palácio Monroe por imposição da ditadura militar; o Jardim Botânico, que desde 1808 conserva milhares de espécies vegetais e centenas de espécies de aves; o delírio do visconde de Courcy, que em 1886 propôs implodir o morro do Pão de Açúcar para ventilar o centro da cidade e, como não podia deixar de ser, o Carnaval. Entre reconstituição histórica e crónica, tudo isto compõe um patchwork de leitura compulsiva. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

quarta-feira, 22 de março de 2017

ATENTADO EM LONDRES


Um homem esfaqueou um polícia ao tentar entrar no Parlamento britânico, enquanto, ali a dois passos, na ponte de Westminster, um atropelamento em massa fez um morto e dezenas de feridos. Um polícia morreu. Dois atacantes foram capturados. O Parlamento foi encerrado.

Clique na imagem do Telegraph.

TRUMP & MAY, PARA JÁ


Anteontem foi Trump. Passageiros oriundos ou com destino a treze países não podem transportar computadores portáteis e tablets (vulgo iPads) na cabine do avião. A medida é taxativa para nove companhias de aviação, entre elas a Qatar Airways e a Emirates Airlines, mas, informalmente, foi sugerida a outras. Todos os instrumentos electrónicos de tamanho superior a um vulgar smartphone têm de ir no porão.

Ontem foi Theresa May. No tocante ao número de países, o Reino Unido desceu de treze para seis, mas as companhias visadas são catorze (em vez de nove), sendo britânicas seis: British Airways, EasyJet, Jet2, Monarch, Thomas Cook e Thomson.

A França e o Canadá estudam o assunto para adoptarem medidas equivalentes. É o mundo em que vivemos.

Clique na imagem do Guardian.

COPOS & PUTAS

Sob o efeito da estrondosa derrota do seu partido, o PvdA, ou Partij van de Arbeid (os trabalhistas), que passou de 38 para 9 deputados, o senhor Jeroen Dijsselbloem desatinou. Nele, não admira. Um ministro das Finanças e presidente do Eurogrupo que atesta no currículo ter um mestrado que nunca fez, é capaz de tudo. Dizer à criatura que, se os povos do Sul gastam tudo em copos e mulheres, é para contrariar os do Norte, que gastam tudo em mefedrona e rapazes.

segunda-feira, 20 de março de 2017

BREXIT


É oficial: Theresa May vai accionar o Artigo 50 no próximo dia 29. Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, já notificou que, em 48 horas, Bruxelas poderá dar início às negociações do Brexit.

A imagem é do Guardian. Clique.

domingo, 19 de março de 2017

GRAÇA MORAIS


Graça Morais tem neste momento uma exposição na Fundação Champalimaud, em Lisboa. O quadro ao alto chama-se 27 Jan 2017, data em foi concluído e coincide com a ordem executiva anti-imigração que Trump tentou impor como Lei. Fica o registo. Graça Morais é uma grande artista, e o facto de não andar ao colo da crítica enfatiza essa realidade.

A imagem é do site da TimeOut. Clique para ver melhor.

sábado, 18 de março de 2017

DEREK WALCOTT 1930-2017


Morreu ontem Derek Walcott, poeta, dramaturgo e ensaísta caribenho, Prémio Nobel da Literatura em 1992. Quanto sei, nenhum livro seu está traduzido em Portugal. O legado colonial e a questão identitária são centrais à sua obra. Em 2009, um pacote anónimo com páginas fotocopiadas de um livro onde é acusado de assédio sexual em Harvard, frustrou a candidatura ao lugar de professor de poesia em Oxford. Morreu em Santa Lúcia, onde nasceu. Tinha 87 anos.

PORQUÊ?

Sou capaz de perceber o ódio que muitos magistrados e professores do ensino básico e secundário votam a Sócrates. A redução das férias judiciais e o sistema de avaliação de docentes explicam a fronda corporativa. Mas o justicialismo militante de grande parte da comunidade jornalística é para mim um mistério. Não estou a falar de estagiários, nem de opinadores avençados. Estou a falar de titulares de carteira profissional que em vez de pensarem pela sua cabeça preferem ser capachos do Ministério Público. É de facto muito estranho.

sexta-feira, 17 de março de 2017

A CULPA É DO VIZINHO


Pensava que já tinha visto tudo?
Clique na imagem é do Diário de Notícias.

A VIDA COMO ELA É


Clique na imagem do Expresso.

FRANÇA


Sondagem do Monde, hoje.
Clique na imagem para ver melhor.

quinta-feira, 16 de março de 2017

MARGARET ATWOOD


Hoje na Sábado escrevo sobre O Coração é o Último a Morrer, o penúltimo romance de Margaret Atwood (n. 1939), autora que volta a esticar os limites da distopia. Dentro de trinta anos saberemos se ela foi o Jules Verne da transição do século XX para o XXI. Verne publicou nos anos 1860-70 diversas obras de antecipação que preencheram o imaginário de várias gerações. Margaret Atwood investe menos na vertente científica, pondo o acento tónico na mutação civilizacional que tem sido o traço distintivo das últimas décadas: fundamentalismo religioso vs laicismo, totalitarismo vs normas constitucionais, xenofobia vs dissolução de fronteiras, e assim por diante. Quem, tendo lido Órix e Crex (2003) ou O Ano do Dilúvio (2009), tem presente as tramas respectivas, sabe que o colapso da civilização tal como a conhecemos é o foco central da obra da autora. Isto é válido para as questões ambientais e, de forma correlata, para o autoritarismo. Pode parecer-nos absurdo o que acontece com Charmaine e Stan, personagens de O Coração é o Último a Morrer. A questão é: até quando? Até quando isto não rompe o formato de um romance distópico? Charmaine e Stan, vítimas dos Mercados, foram descartados. Ela trabalhava num lar para idosos, ele numa empresa de robótica. O crash deu cabo de tudo, «todo o sistema ruíra», o dinheiro foi pelo cano, mentiras e fraudes fizeram lei: «Na televisão, hordas de peritos de meia-tigela tentavam explicar por que razão aquilo acontecera […] mas tudo isso não passava de suposições da treta.» Agora dormem no carro, um Honda em terceira mão. Servir à mesa, como Charmaine fez durante uma temporada, ou permanecer desempregado por excesso de habilitações, como sucedeu com Stan, não permite alternativa. E depois temos Consiliência, a cidade onde está localizado o Projecto Positrão. Charmaine e Stan tiveram sorte em ser admitidos. Regras simples: mês sim, mês não, cedem a sua liberdade (indo para uma cela de prisão) a troco de uma casa. Não é o romance que inquieta. É o grau de premonição. Quatro estrelas. Publicou a Bertrand.

DOR DE CABEÇA EM HAIA


Elegendo 33 deputados, o partido liberal VVD, de Mark Rutte, primeiro-ministro desde 2010, ficou em primeiro lugar. Mas o PVV, de Geert Wilders, líder da extrema-direita holandesa, ficou em segundo, com 20 deputados. Depois há dois partidos com 19 deputados cada um: os cristãos-democratas do CDA e os anarquistas radical-chic do D66. Como a soma do VVD com o CDA e o D66 não atinge os 76 deputados necessários para a maioria absoluta, Rutte tem duas hipóteses: ou se coliga novamente com os trabalhistas do PvdA (nove deputados), ou com os ecologistas do GL (catorze deputados). Ter no Parlamento 20 racistas assumidos  não é pêra doce, mas podia ter sido pior.

Clique no gráfico do Telegraaf.

quarta-feira, 15 de março de 2017

AKRASIA


Parece uma anedota de mau gosto? Não é.
Clique na imagem é do Expresso.

EM QUE FICAMOS?

Como surgiu o 17 de Março? Contra mim falo, mas sempre supus que Joana Marques Vidal, no despacho de prorrogação de prazo do inquérito a Sócrates, tivesse escrito... até 17 de Março. Afinal não. O que a Procuradora-Geral da República estabeleceu foi um prazo de 180 dias. Ora os 180 dias terminaram à meia-noite de segunda-feira, 13 de Março. Os advogados do antigo primeiro-ministro já requereram à PGR notificação «do despacho de enceramento do inquérito», porque os actos praticados depois do dia 13 são ilegais.

O que me espanta é que, até ao momento, que se saiba, nenhum jornalista tenha ido à PGR perguntar como é. Provavelmente nem se deram ao trabalho de contar pelos dedos.

NEXIT?

Hoje é dia de eleições gerais na Holanda. Concorrem 28 partidos. Por tradição, 14 conseguem eleger deputados. As últimas sondagens dão empate técnico entre o VVD, ou Volkspartij voor Vrijheid en Democratie, de Mark Rutte, primeiro-ministro desde 2010, e o PVV, ou Partij voor de Vrijheid, de Geert Wilders, líder da extrema-direita.

Rutte tem 50 anos, é solteiro e liberal. Wilders, dissidente do VVD, 53 anos, casado, assumidamente xenófobo e anti-imigração, tenciona propor um referendo para a saída da UE.

Nos últimos cem anos, todos os governos holandeses foram de coligação. E nem sempre o primeiro-ministro sai do partido mais votado. Portanto, a menos que o PVV consiga eleger os 76 deputados necessários para a maioria absoluta, Wilders dificilmente será PM. Mas é evidente que uma votação muito expressiva no seu partido influenciará a condução da política holandesa, qualquer que seja o perfil do governo que venha a ser empossado. Estima-se que o PVV (Wilders) eleja 26 deputados, contra 28 do VVD (Rutte). A ver vamos.

terça-feira, 14 de março de 2017

TURQUIA VS UE

A Turquia não autoriza o regresso a Ankara do embaixador da Holanda. Ausente do país, o embaixador preparava-se para regressar ao seu posto. «Não fomos nós que criámos esta crise», disse Numan Kurtulmus, vice-primeiro-ministro e porta-voz do Governo turco.

segunda-feira, 13 de março de 2017

BREXIT EM FORÇA

Esta noite, a Câmara dos Comuns chumbou os diplomas da Câmara dos Lordes sobre o Brexit. Por 335 votos contra 287, foi rejeitada a protecção dos direitos dos imigrantes (incluindo os da UE) residentes no Reino Unido. Por 274 votos contra 135, foi rejeitada a exigência de votação parlamentar no fim das negociações. Theresa May ficou com as mãos livres para fazer o que quiser.

O FOLHETIM

O Ministério Público desistiu de meter Vale de Lobo no pacote de acusações a Sócrates. Inexistência de provas sustentáveis, esclarece Judite de Sousa. Aliás, nem provas nem... agarrem-se, indícios! Nada. Como o antigo primeiro-ministro ainda estava a ser interrogado quando a TVI deu a notícia, pode-se conjecturar tudo. O facto do prazo ir derrapar (a deadline era a próxima sexta-feira, dia 17) não é novidade, mas Judite sublinha que os prazos são meramente indicativos. Portanto, mais um mesito, na melhor das hipóteses. Razão tinha o Presidente da República quando, hoje de manhã, na sessão de abertura da conferência “Justiça igual para todos”, promovida pela Associação 25 de Abril e realizada na Gulbenkian, se manifestou desconfortável com o estado da Justiça. E disse-o com ar sisudo, coisa rara nele.

domingo, 12 de março de 2017

NAPALM

Lembram-se da tirada famosa de Robert Duvall, martelada ao som da Cavalgada das Valquírias, de Wagner? Esta: «Adoro o cheiro de napalm logo pela manhã.» É a frase mais citada de Apocalypse Now, o filme de Coppola. Aplica-se com propriedade à situação actual na Europa. O que está a passar-se entre a Holanda e a Turquia é de uma gravidade extrema. Na prática, os dois países estão com as relações diplomáticas cortadas: embaixadas encerradas em Haia e Ankara, consulados encerrados em Roterdão e Istambul. Um ministro turco impedido de desembarcar em Amesterdão, uma ministra turca impedida de entrar no consulado do seu próprio país, detida e expulsa de Roterdão. Comícios de apoio ao referendo de Erdogan, cancelados e proibidos na Holanda. Motins de rua desde ontem à noite. Erdogan ameaça proibir o acesso de companhias aéreas holandesas à Turquia. É muita coisa junta.

Na Alemanha, a situação mantém-se dentro de limites razoáveis. Foram autorizados trinta comícios, mas Merkel foi ao Bundestag dizer que não admitia comparações com o regime nazi. Os holandeses, que também não gostaram de ouvir Erdogan dizer que eles têm mentalidade e actuam em função de reminiscências nazis, estão a esticar a corda, até porque no próximo dia 15 há eleições gerais.