segunda-feira, 23 de abril de 2018

BOOKS


Dia Mundial do Livro.
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sábado, 21 de abril de 2018

A INVICTA


Tendo visitado o Porto umas seis dúzias de vezes, nunca ali tinha permanecido cinco dias seguidos. Gostei francamente da experiência. O Porto que me era familiar circunscreve-se ao eixo Campo Alegre/Foz, porque é lá que moram os amigos e, por essa razão, a deslocação para o downtown revelou outra cidade. Verdade que o downtown de 2018 não é o de 1988. Obras de reordenamento urbano, limpeza, recuperação de edifícios, comércio de qualidade, oferta de hotéis, cafés restaurados com bom gosto, esplanadas, tudo contribui para fazer do Porto actual uma cidade convidativa.

Fiquei fã da zona de Sá da Bandeira. E descobri a Rua das Flores, onde fica a Ourivesaria Alliança, durante décadas a maior da Península Ibérica. Os lisboetas conhecem a Alliança da Rua Garrett, mas a casa-mãe, fundada em 1925, embora já não disponha dos cinco andares originais, tem uma elegante casa de chá no piso térreo. Quem for avesso a baixelas e cristais pode ir ao Mercador Café fazer uma refeição ligeira ou beber um copo em ambiente simpático e civilizado. Os bibliófilos encontram dois alfarrabistas, sendo um deles o famoso Chaminé da Mota. A Igreja da Misericórdia merece uma visita, bem como o MMIPO (museu da Misericórdia) e a Chocolataria das Flores. Uma dúzia de barzinhos frequentados por malta nova, trendy, e franceses estruturalistas, dão um toque de cosmopolitismo soixante-huitard. No topo Sul fica o Largo de São Domingos, com esplanadas e a cara lavada. Dois restaurantes merecem atenção: o Traça e o LSD, especialmente o primeiro, que entrou para a minha lista portuense.

É evidente que o centro histórico do Porto não se resume à Rua das Flores, mas foi a zona mais agradável que visitei. Quanto à Rua de Santa Catarina, outrora aprazível, está transformada numa espécie de Chinatown, não tanto pelas lojas, pois há de tudo, mas pelo tipo de esquizofrenia universal. Numa altura em que a cidade se renova, é incompreensível o estado de decadência do magnífico edifício do antigo Cinema Batalha. A reabilitação prevista para 2019 avança? Oxalá. Do outro lado da praça, o Teatro de São João está um brinco.

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quinta-feira, 19 de abril de 2018

MEXIA & SEBALD


Hoje na Sábado escrevo sobre Lá Fora, de Pedro Mexia (n. 1972). Ao contrário da percepção geral, a crónica não é um género muito praticado entre nós. As pessoas confundem crónica com panfleto. Crónica é outra coisa. E Mexia é dos raros cultores avisados. Avisado no sentido de discreto e sensato, qualidades que não beliscam a ironia, a emoção e, sem pose, a costela de erudito. Lá Fora, a colectânea mais recente, reúne textos publicados entre 2006 e 2017. O texto mais antigo, A sauna da democracia, é o retrato nítido do Parlamento. Se tivesse sido escrito pelo Eça a pretexto do estado da Nação sob Hintze Ribeiro, não seria diferente do estado da Nação sob Sócrates. Em flashes breves, Mexia sinaliza os pares da República. Por exemplo: «Nuno Melo lembrava o entusiasmo de um magala que vai às meninas. […] Bernardino Soares nunca foi novo.» O livro é um conjunto de evocações, viagens, afinidades electivas. Por serem momentos decisivos da vida do autor, o texto sobre o encerramento do Tribunal da Boa Hora estabelece uma ponte com o da deslocalização do ‘Diário de Notícias’ para fora do edifício de Pardal Monteiro. No primeiro, Mexia evoca o tempo em que cumpria com tédio o estágio de advocacia; no segundo, os primeiros anos inteiramente dedicados à escrita. Em registo oposto, Uma noite no Lux é um dos textos melhor conseguidos do livro. O mito da discoteca do Cais da Pedra não resiste à mordacidade do noctívago acidental: os «moços com pulôveres amarelos e dentes a mais», os projectores de luz «comprados nuns saldos da Stasi», etc. Sobre a Figueira da Foz, um texto comovido: «Aqui aprendi tudo e não aconteceu nada.» Mas também Maputo, aliás Lourenço Marques, reconstruída a partir de «autobiografias de terceiros». Porque foi a cidade colonial que Mexia tentou ‘encontrar’. A paleta de temas inclui assuntos tão diferentes como a polémica em torno da estátua de Catarina de Bragança, em Nova Iorque; a relação de Leonard Cohen com Marianne Ihlen; o terror metódico de Auschwitz; os judeus sefarditas de Amesterdão; o massacre de Utoya, na Noruega; e outros que o autor expõe com igual brilho. Quatro estrelas. Publicou a Tinta da China.

Escrevo ainda sobre a reedição de Pátria Apátrida, do alemão W.G. Sebald (1944-2001), colectânea de ensaios que dá a medida do sucesso do autor num país que só o descobriu depois de morto. Figura incontrornável do academismo alemão, ensaísta brilhante, Sebald notabilizou-se junto do grande público por intermédio das suas reflexões sobre decandentismo, identidade e memória. Os ensaios reunidos em Pátria Apátrida detêm-se com especial minúcia numa plêiade de autores de língua alemã, casos de, entre outros, Franz Kafka, Hermann Broch, Peter Handke, Charles Sealsfield, Leopold Kompert e Joseph Roth. Em consequência, a questão judaica é um tema em pauta: Para leste, para oeste. Aporias das histórias de gueto em língua alemã é, dos textos coligidos, um dos mais aliciantes. Sebald faz close reading das obras e autores estudados, com remissões de vária ordem (sociológica, política, literária), mas a clareza da escrita, sempre fluente, induz a leitura. Vejamos, sobre O Castelo, de Kafka: «O fado da família Barnabas é uma sociologia sinóptica do povo judeu. Na sua consequência mais extrema, a conclusão é que a minoria oprimida…» Um leitor menos apetrechado, mas não fútil, procurará inteirar-se do quadro geral. E só tem a ganhar. Quatro estrelas. Publicou a Quetzal.

sábado, 14 de abril de 2018

MILOS FORMAN 1932-2018


Após doença breve, morreu ontem à noite, na sua casa do Connecticut, o realizador checo Miloš Forman, naturalizado americano desde 1968. Autor de filmes que ficaram no imaginário popular, como foi o caso de, entre outros, O Baile dos Bombeiros (1967), proibido após a invasão de Praga pela URSS, Voando Sobre um Ninho de Cucos (1975, cinco óscares), Amadeus (1984, oito óscares) e Valmont (1989), Forman, que também era actor, tornou-se um nome de referência da história do cinema. Filho de pais judeus, praticamente não os conheceu, pois foram mortos num campo de concentração nazi. Tinha 86 anos.

COMEÇOU


Por volta das duas da madrugada, hora portuguesa, os Estados Unidos, o Reino Unido e a França bombardearam os arredores de Damasco e outra localidade a Norte da capital síria. Sabemos como começou, não sabemos como irá acabar. O Senado americano, o Parlamento britânico e o Senado francês autorizaram a operação.

A imagem do New York Times mostra o momento em que os mísseis sobrevoavam Damasco. Clique.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

IDENTIDADE DE GÉNERO


Por 109 contra 106 votos, o Parlamento aprovou hoje a nova lei de identidade de género, baixando para 16 anos a idade para mudar de sexo no Cartão do Cidadão. Acaba também a obrigatoriedade de apresentar relatório médico. Votaram a favor: PS, BE, PAN, PEV e Teresa Leal Coelho, do PSD. Votaram contra: PSD e CDS. O PCP absteve-se.

LITERATURA SEM NOBEL?


Sara Danius, secretária permanente e porta-voz da Fundação Nobel, demitiu-se ontem na sequência da demissão de Katarina Frostenson, poeta, membro da Academia Sueca, casada com o fotógrafo Jean-Claude Arnault, acusado de assédio sexual por dezoito mulheres. O escândalo rebentou em Novembro, e o apoio de Sara Danius a Katarina Frostenson levou à demissão, a semana passada, de três membros da Academia. Agora que Katarina bateu com a porta, Sara foi forçada a fazer o mesmo. O busílis é que a Academia ficou sem quorum para decidir sobre o Nobel da Literatura. A eleição de novos membros está vedada enquanto não for resolvido o processo que opõe dois membros (ausentes das votações dos últimos anos) à direcção da Academia. O rei Carlos XVI acompanha a situação de perto.

Na imagem, Sara Danius. Clique.

TORTURA

Carlos Botas, capitão, ex-comandante da GNR de Santiago do Cacém, foi ontem condenado pelo Tribunal de Setúbal a 4 anos e 6 meses de prisão efectiva por, em 2011, ter chicoteado repetidamente quatro suspeitos de assaltos na Comporta. «Na minha zona ninguém rouba», reiterou. Em Portugal, terá sido a primeira condenação de um militar/polícia por tortura.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

CORTÁZAR & MÃE


Hoje na Sábado escrevo sobre o romance de estreia de Julio Cortázar (1914-1984), Os Prémios, finalmente traduzido. Não foi o primeiro que o autor escreveu, mas foi o primeiro a ser publicado, antecipando O Jogo do Mundo (1963), o livro da consagração, epítome da ruptura com o modelo clássico da ficção latino-americana. A trama é simples: os vencedores da lotaria têm direito a um cruzeiro. O destino é desconhecido e há regras a cumprir. Depois de um encontro no café London, de Buenos Aires, um grupo de contemplados aceita embarcar num cargueiro misto da Magenta Star. Como o embarque se faz às escuras, desconhecem o nome do navio, Malcolm. Deveras enigmático. Nenhum deles tem afinidades entre si: nem origem social, nem profissão, nem convicções ideológicas, nem conta bancária, nem sequer as razões pelas quais aceitaram o prémio. A partir daí, tudo gira em torno do quotidiano de Lucio, Nora, Medrano, Paula, Raúl, Claudia, Felipe, Persio e outros. Idiossincrasias, equívocos, sexo (área em que Cortázar revela exemplar à-vontade), rancores, pusilanimidades, intrigas, decepções, arrivismo, prosápia intelectual, atritos, tudo contribui para fazer daquele peculiar microcosmo um retrato da sociedade da época. Persio, provável alter ego de Cortázar, parece ser o único com a chave dos acontecimentos. Medo e perplexidade face ao desconhecido. A existência de tifo a bordo piora a situação. Por que motivo o navio foi autorizado a partir com tripulantes doentes? Porquê a inexplicada ancoragem? A proibição de aceder à ponte tem a ver com o tifo? A tripulação nada esclarece e o seu mutismo provoca um motim entre os passageiros. O desfecho pícaro quadra de viés com a retórica existencialista. A grelha semântica seria afinada com O Jogo do Mundo, mas, por enquanto, largas passagens são redundantes. Filho de um diplomata argentino, Cortázar nasceu na Bélgica, poucas semanas após a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Mais tarde viveu na Argentina, onde publicou contos e outros textos. Em 1951, descontente com o regime de Perón, fixa-se em Paris como tradutor da Unesco. Em 1981, em protesto contra a ditadura militar de Videla e Viola, solicita e obtém a nacionalidade francesa. Quatro estrelas. Publicou a Cavalo de Ferro.

Escrevo ainda sobre Publicação da Mortalidade, a poesia reunida de Valter Hugo Mãe (n. 1971). Mais conhecido como ficcionista, o autor voltou à poesia. Melhor dito, reuniu num único volume os poemas definitivos. Os livros originais foram agrupados sem referência à primeira publicação. Nenhuma introdução ou simples nota indica os critérios da recolha. O leitor terá de descobrir por si os poemas omissos ou de tal modo alterados que devêm inéditos. Valter Hugo Mãe tinha dez livros de poesia publicados quando o primeiro de sete romances fez dele um autor mediático. Portanto, o grande mérito desta poesia reunida consiste na demonstração do conseguimento do autor enquanto poeta (em detrimento do ficcionista, entenda-se). Numa época em que a narrativa vive refém da retórica mais adiposa, a sua poesia não tem medo da elipse: «vem ver-nos / tarda nada chega a primavera / e as flores que plantámos no / quintal vão florir como / símios loucos aos teus pés». A lição modernista é recuperada com brio. Noutro registo, a sequência «os olhos encaracolados de sonho» (um extenso poema) dá a medida do fôlego do poeta. Quatro estrelas. Publicou a Assírio & Alvim.

RECUO?

A reviravolta indicia que alguém tomou as rédeas em Washington. Depois das ameaças que fizeram subir a tensão para níveis incomportáveis, Sarah Huckabee Sanders, porta-voz da Casa Branca, esclareceu que, existindo outras opções, não está iminente um ataque à Síria. Antes assim. Não obstante, Theresa May mantém para hoje uma reunião de emergência do Governo britânico com vista a acertar detalhes da intervenção. Se formos optimistas, podemos concluir que alguém fez um desenho ao Presidente.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

SÍRIA

Parece estar iminente um ataque aéreo à Síria por parte dos Estados Unidos. A aviação civil já foi avisada para a ocorrência de perturbações na área do Mediterrâneo oriental. Há porém um sério busílis: havendo, como parece haver, militares e equipamento russo em todas as instalações militares sírias, um ataque à Síria será também um ataque à Rússia. Para já não falar do Irão.

Claro que a Síria é um pretexto. O vasto mundo, a Ocidente e a Oriente, a ONU, a NATO e a UE borrifam-se para a tragédia síria. Mas Trump tem de distrair a opinião pública das declarações de duas mulheres: Karen McDougal, ex-modelo da Playboy, alega ter tido durante um ano (2006) uma relação amorosa com o Presidente e de, em conformidade, ter recebido 150 mil dólares; e Stephanie Clifford, actriz porno conhecida como Stormy Daniels, recebeu 130 mil dólares para garantir que mantinha a boca fechada durante a eleição presidencial de 2016. Bem pode Trump dizer que tudo não passa de... A total witch hunt, que Robert S. Mueller III, o Procurador, não se comoveu. Agentes do FBI invadiram e revistaram o gabinete do advogado pessoal do Presidente, Michael D. Cohen, recolhendo provas dos pagamentos e outras acusações. Tudo isto explica a urgência do ataque à Síria. A ver vamos.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

ORBÁN REELEITO


A reeleição de Viktor Orbán para um terceiro mandato consecutivo deve fazer a Europa reflectir. O outdoor da imagem ilustra o enfoque da campanha eleitoral: Stop à emigração. Com este slogan, o partido de Orbán, o Fidesz, ou Magyar Polgári Szövetség, elegeu 70% dos deputados do Parlamento húngaro. O mundo está perigoso.

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domingo, 8 de abril de 2018

BRASIL

Se, como tudo parece indicar, Bolsonaro for o próximo Presidente do Brasil, a maioria silenciosa que caucionou a prisão de Lula vai acabar como os aristocratas franceses que festejaram a execução de Luís XVI. Na carroça, que é como quem diz no camburão.

Jair Bolsonaro, 63 anos, olho azul sibilino, militar na reserva, apoiante declarado da ditadura militar, defensor da legalização da tortura policial e da pena de morte, deputado (o mais votado no Rio de Janeiro), católico fundamentalista, activista anti-LGBT e anti-aborto, é considerado o político brasileiro mais influente nas redes sociais.

Os media que comparam Lula a Capone, e as classes médias blasé, vão sentir o pau. Não haverá vaselina que chegue.

ACABOU


Sábado, 7 de Abril. Fixar a data. Eram 18:42 em São Bernardo do Campo quando Lula da Silva saiu do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e entrou no carro da polícia que o conduziu à sede da Polícia Federal em São Paulo. Ali fez exame de corpo de delito, seguindo depois para o aeroporto de Congonhas, onde um avião da Força Aérea Brasileira o levou até Curitiba. Passava das 22:00 quando deu entrada na Superintendência da Polícia Federal da capital do Paraná. Para milhões de brasileiros da classe trabalhadora, e um número residual de estudantes, artistas e intelectuais da classe média, acabou o sonho de um Brasil mais justo.

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sábado, 7 de abril de 2018

A LÍNGUA


Leio revistas brasileiras desde miúdo. O Cruzeiro era uma revista muito popular em Moçambique, e minha Mãe fez uma assinatura creio que em 1956. Machado de Assis e Érico Verissimo também foram leituras precoces. Assim fui descobrindo palavras novas, e gabarito foi a primeira que adoptei. Dito de outro modo: desde cedo percebi que a língua portuguesa extravasa o paroquialismo das selectas.

Vem isto a propósito de quê? No momento que o Brasil atravessa, o hábito de ler jornais brasileiros intensificou-se: era um de manhã, sempre o mesmo, agora são vários. Todos os dias descubro palavras novas. Nada a ver, de facto, com o vocabulário tuíteiro de 9 em cada 10 jornalistas e colunistas portugueses. Lemos cenas do ódio a roçar o totalitarismo, mas o cânone da língua permanece intacto.

IMPASSE


Lula da Silva continua nas instalações do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo. Significa isto que não cumpriu o prazo dado por Sérgio Moro, o justiceiro de Curitiba que lidera a Operação Lava Jato. Lula não se entregou, mas também não fugiu. E há meses que o podia ter feito. Não faltam países sem acordo de extradição com o Brasil para onde poderia ter fugido. Acho bem que não o tenha feito. Se o querem prender, têm de o ir buscar. É a diferença entre um estadista e um palhaço.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

DÚVIDA


Alegadamente por questões de segurança, Lula da Silva não tenciona deslocar-se de São Bernardo do Campo, onde permanece, a Curitiba, onde deverá ficar preso. A dúvida é saber se a Polícia Federal invade as instalações do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde Lula dormiu a noite passada, ou se o ex-Presidente vai entregar-se em São Paulo, que fica apenas a 19km. A ver vamos.

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O FIM?


Menos de 18 horas após o veredicto do STF, o juiz Sérgio Moro exarou despacho de prisão contra Lula da Silva:

«[...] Relativamente ao condenado e ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, concedo-lhe, em atenção à dignidade do cargo que ocupou, a oportunidade de apresentar-se voluntariamente à Polícia Federal em Curitiba até as 17:00 do dia 06/04/2018, quando deverá ser cumprido o mandado de prisão. Vedada a utilização de algemas em qualquer hipótese. [...]»

Neste momento ainda não se sabe se Lula vai entregar-se voluntariamente. Logo, quando forem 20:00 em Portugal, saberemos.

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quinta-feira, 5 de abril de 2018

O FOLHETIM

Considerando que o referendo e a declaração unilateral de independência da Catalunha não envolveram violência, o Tribunal Superior Regional de Schleswig-Holstein entendeu que o crime de rebelião não deve ser considerado na extradição de Puigdemont. Desse modo, após pagar uma fiança de 75 mil euros, o catalão aguardará em liberdade a tramitação do processo de extradição pelo crime de desvio de fundos públicos (está acusado de desviar 1,6 milhões de euros). Aguardar os próximos capítulos do folhetim.

ELIZABETH STROUT


Hoje na Sábado escrevo sobre Tudo É Possível, da norte-americana Elizabeth Strout (n. 1956), autora que faz parte de um grupo que, por uma ou outra razão, se mantém arredio à edição portuguesa. E não devia. O romance mais recente, laureado com o Story Prize de 2018, acaba de ser traduzido. A autora tem sido aclamada pela crítica mais exigente, indiferente ao facto de vários dos seus livros serem bestsellers e, entre outros prémios, recebeu o Pulitzer de Ficção em 2008. Quem tenha lido O Meu Nome é Lucy Barton (2016) identifica a personagem central de Tudo É Possível. O romance pode ser lido como uma sequência de contos unidos pelo mesmo fio condutor. Denominador comum: o sexo. O plot gira em torno do regresso de Lucy Barton à vila do Illinois que a vira partir, adolescente ‘excluída’, para Nova Iorque. Regressa como escritora, e esse regresso, a pretexto do lançamento do seu livro de memórias, vai iluminar os recessos mais negros do passado dos habitantes de Amgash. Embora as situações sejam diferentes, como não pensar em Dürrenmatt e A Visita da Velha Senhora? Na terra todos conhecem as histórias de todos. Algumas são terríveis, como a infância devastadora de Sebastian, repetidamente estuprado pelo pai. Outras fúteis, como a mexeriquice acerca da frigidez de Patty, mulher de Sebastian e filha da mulher que protagonizou um adultério gravado nos anais Amgash. Chegados à velhice ou à meia-idade, o rancor deixara de pedir licença. O regresso de Lucy potencia várias formas de atrabílis. No capítulo Irmã, ela própria tem o seu momento de catarse. Em conversa com os irmãos, sofre um ataque de pânico e vê-se obrigada a partir. Elizabeth Strout compõe as personagens com precisão não isenta de subtileza. Por exemplo, Charlie, o homem «da dor indizível», antigo combatente no Vietname, sofre de stress pós-traumático. Linda vive longe, num meio glittering em tudo oposto ao da irmã (Patty) e dos outros. Crime, travestismo, compaixão, voyeurismo, luta de classes, homossexualidade, tudo perpassa nesta constelação de vidas interligadas. Toda a vulnerabilidade será castigada? Quatro estrelas. Publicou a Alfaguara.