segunda-feira, 6 de julho de 2015

TSAKALOTOS

 
Euclides Tsakalotos, 55 anos, até ontem ministro-adjunto dos Negócios Estrangeiros, é a partir de hoje o ministro das Finanças da Grécia. Formado em Oxford, Tsakalotos chefiava a equipa negocial grega desde 27 de Abril. A imagem é do Público.

DISCURSO DIRECTO, 6

Eduardo Paes Mamede em entrevista ao Negócios. Excerto:

«É impossível governar à esquerda com as actuais regras europeias. Isso causa grandes dificuldades à esquerda porque implica dizer às pessoas que o nosso projecto, por mais moderado que seja, só vai ser possível com uma ruptura, que tem sempre alguma coisa de radical. A maior parte da população vive mal com a incerteza

VAROUFAKIS SAIU

Tsipras ganhou o referendo. A vitória do Não é inequívoca: 61,3% contra 38,7% do Sim. A abstenção foi de 37,6%. Vamos ver o que a Grécia ganhou ou poderá vir a ganhar com este desfecho. Para já, Varoufakis demitiu-se: Excerto do statement de despedida: «Soon after the announcement of the referendum results, I was made aware of a certain preference by some Eurogroup participants, and assorted ‘partners’, for my… ‘absence’ from its meetings; an idea that the Prime Minister judged to be potentially helpful to him in reaching an agreement. For this reason I am leaving the Ministry of Finance today.» Foi uma pena ter levado cinco meses a perceber o óbvio.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

O DINHEIRO OU DISPARO


Capa do jornal alemão Handelsblatt, especializado em assuntos económicos. Clique.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A ESPIRAL


Um grupo de 246 professores gregos de Economia tornou público um dramático apelo ao Sim no referendo de domingo (se houver referendo). A imagem é do Ekathimerini. Clique na imagem.

CARLA HILÁRIO QUEVEDO


Hoje na Sábado escrevo sobre As Mulheres que Fizeram Roma, de Carla Hilário Quevedo. Apoiada em sólida bibliografia, a autora faz o retrato de catorze mulheres que moldaram Roma. Como refere o subtítulo, trata-se de “14 histórias de poder e violência”, cobrindo um extenso arco cronológico: de 753 a.C. (o mito de Reia Sílvia, mãe de Rómulo e Remo) ao ano 450, quando morre a imperatriz Gala Placídia. Entre ambas, seguimos o percurso de Lucrécia, Cornélia, Clódia Metela, Cleópatra VII, Lívia Drusa, Valéria Messalina, Júlia Agripina, Domícia Longina, Víbia Sabina, Faustina (a Jovem), Júlia Domna e Helena de Constantinopla. Mulheres, portanto, no lugar que a História tem reservado a imperadores, senadores, generais e poetas. A linguagem é clara, a informação bem sustentada e a narrativa sedutora. O volume inclui retratos das catorze protagonistas, bem como esclarecedoras notas de fim de texto que ajudam a situar o leitor menos versado. Três estrelas.

CONTRADIÇÃO NOS TERMOS

A ver se falamos português. Tsipras diz que votar no Não, como ele pretende, não significa sair da zona euro. Verdade que, dos 28 Estados-membros da UE, apenas 19 adoptam o euro. Os restantes não abdicaram das moedas nacionais. Mas é uma manobra de prestidigitação (a palavra certa é vigarice) induzir o eleitorado no sentido do Não, tendo como pressuposto a manutenção do status quo. O Não obrigará a Grécia a romper com o protocolo do Eurogrupo. Votar no Não e recomeçar no dia seguinte a ponte aérea para as reuniões de Bruxelas é uma contradição nos termos.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

JESSE BERING


Jesse Bering, 40 anos, professor de psicologia, homossexual assumido, autor de obras polémicas como Why is the Penis Shaped Like That? (2012), colaborador da Scientific American, Slate, The New Republic, Guardian, etc., é também autor deste magnífico Perversões, publicado em 2013 e agora traduzido por Pedro Garcia Rosado. O tema parece estafado? Engano. O pensamento, a escrita, o humor, a mordacidade, a irreverência e o fair play de Bering tornam a leitura compulsiva. O volume inclui índice remissivo.

NÃO HAVIA NECESSIDADE

Com quase 30% de desempregados (número que sobe para 60% entre os jovens), funcionários e pensionistas que em dois anos perderam cerca de metade dos seus rendimentos líquidos, meio milhão de pessoas sem acesso a electricidade, hospitais onde faltam as coisas mais básicas, farmácias à míngua de medicamentos, centenas de empresas encerradas, a economia paralisada, um rombo de 25% no PIB, etc., jornalistas portugueses que estão em Atenas fazem entrevistas nas lojas e cafés trendy dos bairros elegantes da capital grega.

IRREVOGÁVEL


No dia em que a Grécia entrou oficialmente em default, Yannis Dragasakis (Syriza), vice-primeiro-ministro e responsável pela coordenação económica do Governo, foi à televisão dizer que o referendo pode ser cancelado. Zoe Konstantopoulou (Syriza), a presidente do Parlamento, diz que não: «Uma vez convocado, não pode ser cancelado.» Varoufakis disse aos colegas do Eurogrupo que Atenas cancelava o referendo em troca de dinheiro. Tudo no mesmo dia. Esta trapalhada não tem nome. A imagem é do Diário de Notícias.

terça-feira, 30 de junho de 2015

CAMBALHOTA


A proposta partiu de Atenas. Aparentemente, o referendo foi pelo cano. A imagem é do Guardian. Clique.

DISCURSO DIRECTO, 5

Sócrates em entrevista ao Diário de Notícias e à TSF, hoje. Brevíssimos excertos, sublinhados meus:

«A Justiça não pode ser confundida com as autoridades judiciárias.» / Sobre a manutenção da prisão preventiva: «Você repare que, com este episódio, diversos advogados conhecidos pela sua experiência e sabedoria [...] abandonaram a sua tradicional prudência e reserva e vieram explicar com toda a clareza porque a atuação do Ministério Público e do Juiz de Instrução foi ilegal, ilegítima e insensata.» / «Seis meses de prisão preventiva e sem acusação. Seis meses de uma violenta campanha de difamação efectuada e dirigida pela acusação. Seis meses impedido de me defender. Seis meses de ameaças e intimidação [...] Seis meses de abuso, de arbítrio e mentiras. Seis meses de caça ao homem. Ainda assim, não venceram. [...] bem sei que a lei lhes permite um ano de prisão preventiva sem acusação. Mas nem sempre o que a lei permite, a decência autoriza.» / «Fui detido e preso sem que ao longo de uns intermináveis seis meses me tivesse sido apresentado um único indício — digo indício, já não falo de factos ou provas — de que tivesse praticado o crime de corrupção. Esta situação é, em si, tão inacreditável e tão reveladora da perseguição pessoal e política que motivou este inquérito, que poucos a aceitaram como credível. Mas não se pode sustentar durante muito tempo tamanho embuste.» / «O Ministério Público não tem o direito — repito, não tem o direito — de fazer imputações sem apresentar os factos que as justificam ou as provas que as fundamentam. Quando esquece este seu dever elementar e assim procede não está a agir como acusador público mas como difamador e como caluniador. E insultar e caluniar não são competências do Ministério Público. Numa palavra, este comportamento do Ministério Público não é sério.» / «Ora, se a tese do Ministério Público fosse correcta, se o senhor engenheiro Carlos Santos Silva fosse meu “testa-de-ferro” (ou “homem de palha”, ou “cabeça de turco”, como a acusação gosta de lhe chamar nos romanceados relatos que faz para os jornais), então seria necessariamente o meu nome que constaria como beneficiário no caso de qualquer acidente que impedisse o titular de movimentar as contas. E isso seria assim por uma boa razão: ninguém deixaria que uma fortuna dessas permanecesse durante vários anos (desde, julgo eu, 2005) sem meios de a reclamar no caso de qualquer desgraça pessoal acontecer ao titular.» / «Julgo que o senhor procurador perdeu qualquer sentido da sua responsabilidade. Quando me deteve e prendeu assegurou que tinha contra mim um caso sólido e fundamentado. Não disse a verdade. Passados seis meses, diz que a prova está consolidada. Tornou a não dizer a verdade. Finalmente, reconhece que nem daqui a seis meses — isto é, um ano depois de me prender — conseguirá apresentar a acusação.» / «A verdadeira intenção da minha detenção abusiva e da minha prisão sem fundamento não foi perseguir crime nenhum mas tão só impedir o PS de ganhar as próximas eleições legislativas.» / A política para si acabou? — «Oh, pelo contrário. Isto ainda agora começou.»

segunda-feira, 29 de junho de 2015

LUZ VERDE PARA O CAOS

 
Os bancos da Grécia ficam fechados nove dias, estando a reabertura prevista para 8 de Julho. Hoje não funcionará nenhum terminal de ATM. A partir de amanhã, cada cartão poderá levantar até 60 euros por dia. Os pensionistas idosos que não têm cartão de débito poderão levantar parte das suas pensões em data e locais a anunciar oportunamente. Enquanto isso, O Banco Central da Suíça desvalorizou a moeda nacional e Cameron manifestou preocupação com a situação dos pensionistas britânicos residentes na Grécia. A imagem é do Diário de Notícias. Clique.

domingo, 28 de junho de 2015

DONE

Por 179 votos a favor, 120 contra e uma abstenção, o Parlamento grego aprovou ontem à noite o referendo do próximo 5 de Julho. Quem não gostou nada da iniciativa do Governo de Tsipras foram Merkel, Hollande, Juncker, Lagarde, Draghi, Tusk e dezoito ministros das Finanças do Eurogrupo, que ontem mesmo rejeitou o pedido da Grécia que pretendia ver prorrogado por alguns dias o programa de ajuda. Dijsselbloem foi claro: «As negociações terminaram. Não há extensão. O programa caduca na próxima terça-feira.» E sugeriu que Varoufakis abandonasse a reunião. O ministro grego das Finanças fez-lhe a vontade e saiu da sala, dizendo aos media que aquele era «um dia triste para a Europa». Os seus dezoito parceiros deram então início à segunda parte da reunião, começando a preparar a blindagem da UE às previsíveis consequências do default grego.

sábado, 27 de junho de 2015

HORA DA VERDADE

Numa comunicação ao país feita ontem por volta das onze da noite, em Atenas, Tsipras anunciou a realização de um referendo no próximo dia 5 de Julho. O eleitorado terá de dizer se aceita, ou não, as condições impostas pela troika. O Syriza irá bater-se pelo NÃO, o que significa estar preparado para romper com a moeda única. Horas antes do statement, o primeiro-ministro grego havia rejeitado as exigências dos credores e um pacote de “auxílio” proposto pelas instituições: dezasseis mil milhões de euros para pagar dívidas e extensão do programa de ajuda até Novembro. Não, disse ele. O povo fará o desempate. Seja qual for o resultado, a situação deixa o Governo grego numa situação complicada. Se o NÃO ganhar, Tsipras terá legitimidade para regressar à dracma, com tudo o que isso implica. Se a vitória for do SIM (e há quem diga que essa possibilidade é quase certa), o Syriza terá de fazer uma de duas coisas: ou abandona o Governo, provocando novas eleições; ou aplica o pacote dos “chantagistas”. A ver vamos.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

DIREITO CONSTITUCIONAL

 
Acabaram as dúvidas. O Supremo Tribunal americano decretou que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é um direito constitucional em todo o país. Acabaram as discrepâncias entre Estados. Até ao momento, o casamento gay era legal apenas em 38 Estados e em algumas cidades de outros cinco Estados, bem como em 24 tribos índias. Até que enfim. A imagem é do New York Times.

FOLHETIM

Muita gente já esqueceu, e muita outra não valorizou o golpe, mas foi Merkel, com a aquiescência dos parceiros, que em Novembro de 2011 impôs uma mudança de Governo em Itália, tirando Berlusconi, três vezes eleito, e pondo no seu lugar Mario Monti, um homem que nunca tinha ido a votos, e teve de ser feito (num domingo) senador vitalício para ocupar o lugar de primeiro-ministro. Isto aconteceu na Itália, que não é exactamente a República das Maldivas. Foi logo a seguir (cinco dias de intervalo) ao golpe grego, quando Papandreu se viu substituído por Lucas Papademos, que vinha do BCE e também nunca tinha ido a votos. Papandreu tinha cometido a heresia de dizer em voz alta que ia propor um referendo sobre a permanência da Grécia no euro. Em 48 horas estava na rua. No Outono de 2011 andava toda a gente distraída, e não devia, porque foram dois golpes de Estado decididos em Berlim, com a cumplicidade de Sarkozy e o beneplácito da tropa fandanga a que chamamos líderes europeus. A opinião pública internacional assobiou para o lado.

O actual folhetim grego é um remake foleiro. É deprimente ouvir os comentadores a esgrimir números sobre a Grécia, sabendo-se que os números gregos, sensatos ou delirantes, não importa, são a última preocupação de Merkel, Juncker, Dijsselbloem, Lagarde, Draghi, Tusk e parceiros menores. Nenhum deles quer saber de números para nada. Tsipras podia fazer espargata em plena Cimeira e o mais que conseguia era pôr Schäuble a bocejar. A UE não aceita um Governo do Syriza e o overacting de Varoufakis desobrigou toda a gente de boas maneiras.

Nisto tudo, espanta-me a passividade de Tsipras e o papel decorativo de Prokópis Pavlópoulos, o Presidente da República, renitentes a confrontar o eleitorado com uma escolha clara.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

BILL BRYSON


Hoje na Sábado escrevo sobre Aquele Verão, de Bill Bryson (n. 1951), um americano que trocou de país. Nascido no Iowa, atravessou o Atlântico em 1973, empregou-se num hospital psiquiátrico do Surrey, casou com uma colega e os filhos nasceram na Inglaterra, onde o autor continua a viver. Em 1995 houve um intervalo americano, durante o qual escreveu para uma revista inglesa os artigos que em 1999 foram coligidos em Notas sobre um País Grande, exemplo do desdém que nutre pelo modo de vida americano.

O livro agora traduzido reporta ao ano de 1927. Com a truculência habitual, Bryson explora o frenesi dos anos 1920 a partir de acontecimentos concretos, como, por exemplo, o aparecimento de três revistas míticas: a Reader’s Digest em 1922, a Time no ano seguinte, e a New Yorker em 1925. Foi, diz o autor, «a época em que se registaram os mais elevados índices de leitura na vida americana.» Como de regra, os seus livros oscilam entre a crónica historicista e o ensaio de índole sociológica: muita informação (uma vertigem enciclopédica), notas de humor nem sempre óbvias, conclusões heterodoxas pontuadas pela sobranceria que alguma intelligentsia europeia reserva para “a América”. O excesso de informação cruzada desvia a narrativa para temas laterais, por vezes sem grande interesse.

A paciência do leitor é posta à prova no Prólogo, um longo texto que inventaria uma série de desaires que precederam a façanha de Charles Lindbergh, o homem que em Maio de 1927 terá feito o primeiro vôo solitário e sem escalas entre Nova Iorque e Paris. Com epicentro no glamoroso Lindbergh, Aquele Verão não ignora as idiossincrasias da era do jazz, o assassinato de Albert Snyder, o processo dos anarquistas Sacco & Vanzetti e, entre derivações mais prosaicas, as grandes cheias do Mississipi que deram origem a uma migração maciça da população negra do Sul para o Norte dos Estados Unidos. O capítulo 28 trata a Literatura de forma light. É bizarro ver Bryson comparar o sucesso comercial de Zane Grey, um dos «autores mais populares do planeta no século XX», com o de F. Scott Fitzgerald, um autor canónico. Seria o mesmo que comparar as vendas de José Rodrigues dos Santos com as de Maria Gabriela Llansol. Um exercício fútil.

O volume inclui catorze páginas de fontes bibliográficas, índice remissivo e, a partir da página 490, verbetes biográficos das principais personagens citadas. Três estrelas.

QUARENTA ANOS


Passam hoje 40 anos sobre a independência de Moçambique. Deixo aqui um excerto do primeiro capítulo do meu livro de memórias, Um Rapaz a Arder, publicado em 2013.

«Moçambique tornou-se independente no dia 25 de Junho de 1975.
Na véspera não fui trabalhar. Era terça-feira mas deve ter havido tolerância de ponto. A época fria tinha começado e o tempo mantinha-se luminoso. Em Moçambique, o Inverno é seco. As chuvas chegam em Janeiro e Fevereiro, quando a temperatura sobe.
O jantar foi servido à hora do costume. Para surpresa de minha mãe, não acompanhei o Jorge à cerimónia que teve início no Estádio da Machava ao minuto zero do dia 25. Estavam lá muitos filhos da burguesia dourada, gente que não tinha sujado as mãos na guerra, preferindo viver anestesiada em Oslo ou Estocolmo. Alguns ficaram. A maioria regressou no primeiro avião ao borralho escandinavo.
Deitei-me cedo e lembro-me de acordar de madrugada com o estampido das balas de jubilação. A Frelimo tinha acabado de instaurar o regime de partido único. Naquele momento, alguns amigos que tinham celebrado a queda de Saigão como o advento de um mundo novo, gozavam as amenidades de Cape Town como lídimos herdeiros de Cecil Rhodes. Eu lia Alan Watts e queria acreditar num futuro que nunca chegou.
Nos termos da Constituição, tornara-me cidadão moçambicano.
A ideia de ser cidadão de uma república popular era um absurdo. Assim que a lei permitiu, o que aconteceu em Agosto, renunciei à nacionalidade que me fora imposta. A certidão de nascimento esclarece: “Perdeu a nacionalidade moçambicana, em 27 de Agosto de 1975.”
Tornara-me cidadão estrangeiro. Hélas! [...]
Deixei Moçambique no dia 8 de Novembro de 1975. Tinha 26 anos. Nesse sábado, em Lisboa, o Governo mandou dinamitar os emissores da Rádio Renascença, controlada pela extrema-esquerda

Para quem não sabe:
1. República Popular de Moçambique foi a designação oficial do país até 30 de Novembro de 1990. A partir daí adoptou a designação actual: República de Moçambique.
2. No dia 13 de Março de 1976, Lourenço Marques passou a designar-se Maputo.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

HOJE DE MANHÃ

 
Não foi exactamente «o Contrato», mas um Share Purchase Agreement, ou seja, um contrato-promessa de compra. Todavia, aconteceu. A imagem é do Expresso. Clique.