quinta-feira, Julho 24, 2014

PARA INGLÊS VER?


O banqueiro Ricardo Salgado foi detido hoje de manhã em sua casa, em Cascais, tendo chegado ao Tribunal de Instrução Criminal por volta das 10 horas. Está a ser ouvido no âmbito do processo Monte Branco, relacionado com branqueamento de capitais, e sobre a venda (em 2010) da ESCOM a empresários angolanos. Foi preciso esperar pela derrocada do Grupo Espírito Santo para que isto fosse possível. Vamos ter um caso Vale e Azevedo II?

[Imagem: foto de Nuno Fox, Expresso. Clique.]

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MÁRIO DE CARVALHO


Hoje na Sábado escrevo sobre Contos Vagabundos, de Mário de Carvalho (n. 1944). A presente edição inclui uma sequência de Fabulário. Por junto, vinte e oito textos que abarcam o largo espectro de harmónicas do autor. A verosimilhança das personagens faz deles um bestiário cruel da nossa contemporaneidade. Na melhor tradição da oralidade, um conto como “Uma vida toda empatada...” é um prodígio de acção, crónica de costumes e riqueza lexical. Tomando como pretexto o target popular adoptado pela televisão a partir do surgimento dos canais privados, temos, em dezassete páginas, o Portugal dos anos 1990. Está lá tudo: concorrência selvagem num mercado escasso, primeiros sinais de deslaçamento dos direitos sociais, o fim das ilusões e a deriva mimética como boia de salvação: «Os anos passaram, Lurdes regressou, superou a mágoa d’A Lota e aperfeiçoou entretanto uma pronúncia nasalada, própria dum sociolecto de ricaços festivos, que se pratica nos arredores de Lisboa. Tinha-lhe sobrado tempo para treinar.» A nitidez do retrato só surpreenderá quem andou distraído. Num efeito de duplo reconhecimento, muitos profissionais dos media podem dizer, hoje, “Lurdes Barbosa sou eu”. Ao contrário do romance, o conto não se detém em grandes pausas descritivas. E, para um autor, nem sempre é fácil encontrar o ponto de equilíbrio entre cadência prosódica e fôlego curto. Reside aí a sedução e dificuldade do formato. Não é forçoso que um grande romancista seja um contista de mérito (creio que o contrário se aproxima mais da realidade). Mário de Carvalho tem a crédito o à-vontade com que domina os dois géneros. Tenderia mesmo a dizer que encontra no conto o seu lugar por excelência.

Escrevo ainda sobre O Reino das Casuarinas, de José Luís Mendonça (n. 1955), autor que não faz parte do clube de autores angolanos com lugar cativo na edição portuguesa. Mendonça acompanhou a “construção” de Angola como país independente. Dito de outro modo: não ficcionou a partir da zona de conforto da cena literária internacional. O autor faz um tour d’horizon à luta emancipalista, ao regime de partido único, à presença dos militares cubanos no país, à dissensão no MPLA que provocou o golpe Nitista e às sequelas da guerra civil. O esboço cronológico orientará leitores menos versados no tema. A crueza dos factos (mulheres acusadas de feitiçaria que a UNITA queimou vivas, etc.) é servida por uma escrita limpa, sem floreados, capaz de prender o leitor da primeira à última página. Publicou a Caminho.

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quarta-feira, Julho 23, 2014

EMPURRAR COM A BARRIGA


Devem chegar hoje a Eindhoven, na Holanda, os corpos de 200 das 298 vítimas do vôo MH17 abatido na região Leste da Ucrânia. É inacreditável que ao fim de seis dias continuem por encontrar 98 corpos. As duas caixas pretas do avião da Malaysia Airlines estão já em Farnborough, na posse do AAIB (Air Accidents Investigation Branch) britânico, para serem analisadas. Enquanto isso, a UE discute o sexo dos anjos.

[Imagem: foto de Maxim Zmeyev, Le Monde. O indivíduo de blazer azul é o líder dos separatistas pró-russos. Clique na imagem.]

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terça-feira, Julho 22, 2014

ROLETA RUSSA

 
O governo está a cumprir o acórdão do Tribunal Constitucional de 30 de Maio. Mas, em simultâneo, deu ordem aos ministérios para incorporarem no OE 2015 (documento que está a ser elaborado neste momento) as normas chumbadas: cortes nas pensões de sobrevivência, redução de salários do Estado a partir de 675 euros, redução do subsídio de desemprego e das contribuições por baixa médica. Só vejo uma razão: arranjar um pretexto para bater com a porta em Outubro. A ver vamos.

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quinta-feira, Julho 17, 2014

TSUNAMI


A débâcle do Grupo Espírito Santo excita a opinião pública pelo lado mais fútil. Se fosse a ruína de uma família, o assunto seria irrelevante, excepto, naturalmente, para o clã. Sucede que o GES representa 20% do PIB nacional. A sua implosão acabará com o pouco que ainda mexe na economia portuguesa. Neste momento, ninguém sabe o que vai acontecer às 180 empresas do grupo, que empregam 25 mil trabalhadores em Portugal, no Luxemburgo, Suíça, Brasil, Angola, Estados Unidos, etc. Assim que a insolvência for declarada, o que pode acontecer a qualquer momento, a turbulência provocará ondas de choque em cadeia. O que vai acontecer ao BES e à companhia de seguros Tranquilidade? Qual o destino das agências de viagens? Os hotéis Tivoli devem ser vendidos a preço de saldo. A Comporta (e outras herdades) idem. Mas e o resto? Por exemplo: o Hospital da Luz irá parar a que mãos?

Como escreveu o Wall Street Journal, é a própria zona Euro que está em risco: «Fears over the collapse of a Portuguese bank spooked the market. European stock markets fell; bond spreads for euro-zone peripheral countries widened, spreads for core countries tightened; a Spanish bank pulled its bond auction and a Greek government bond issue raised less than hoped. [...] The travails of Banco Espírito Santo may have struck many investors as a good excuse to take money off the table. The Portuguese bank is controlled via a cascade of family-owned holding companies and came under pressure when financial irregularities were uncovered at its ultimate parent, Espírito Santo International SA, a conglomerate with diverse interests all over the world. Not only was the Portuguese bank a lender to these family interests, but it had allowed units higher up the shareholder structure to sell bonds directly to its own customers. The market feared a black hole. But there are good reasons to believe that BES isn't a serious threat...»

O default da Rioforte já virou de pernas para o ar a anunciada fusão da PT com a brasileira Oi, empresa cotada em Wall Street e, nessa medida, sob alçada das entidades reguladoras americanas. Clientes do Banque Privée Espírito Santo, com sede em Lausanne, não conseguem resgatar os seus activos. A família pediu protecção contra credores, mas nada impedirá a catadupa de processos judiciais com origem nos Estados Unidos, Luxemburgo, Suíça e Venezuela (o BES falhou esta semana o pagamento de 500 milhões de dólares ao fundo soberano do país de Maduro). Em Angola deverá ser mais expedito: tudo indica que o BESA seja nacionalizado. Uma coisa é certa: a procissão ainda vai no adro.

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quarta-feira, Julho 16, 2014

PATETAS

 
Os jogadores alemães que vemos na imagem  —  Weidenfeller, Mustafi, Schürrle, Klose, Götze e Kroos  —, estão a gozar com os gaúchos, ou seja, com os seus adversários argentinos, supostamente incapazes de terem uma postura correcta. A foto foi obtida por Axel Grimm junto à porta de Brandemburgo, durante a homenagem que Berlim prestou aos campeões. Para não lhe chamar outra coisa, é de muito mau gosto. Clique na imagem.

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terça-feira, Julho 15, 2014

COMEÇOU


Desde as zero horas que os simpatizantes do PS podem inscrever-se nas Primárias marcadas para o próximo 28 de Setembro. Já o fiz. Pode fazê-lo aqui. Não concordo com o processo, mas não há alternativa. O assunto devia ser resolvido pelos militantes, em Congresso extraordinário. Sem aviso prévio, e sem eleições, Margaret Thatcher foi substituída (na liderança do Partido Conservador e na chefia do Governo) por John Major numa famosa quarta-feira de Novembro de 1990. Mas, ao contrário da actual liderança do PS, os ingleses prezam o timing e têm noção do ridículo.

António José Seguro acredita que tem o partido nas mãos, convicção que torna abstrusa a sua teimosia em não resolver o assunto de forma expedita. Passaram quase dois meses desde que António Costa o confrontou com o fiasco das Europeias, tempo mais do que suficiente para fazer um Congresso extraordinário e tirar a prova dos nove. Estupefacto, o país descobriu, pela boca da Santa da Ladeira, que os congressos extraordinários não têm poder electivo. Então servem para quê? Para jogar à macaca?

Uma coisa é certa. Se o PS chegar às Legislativas de 2015 com a actual direcção, um score de 20% será uma grande vitória para Seguro. É de prever que o MPT repita o passe de mágica do PRD em Outubro de 1985, quando o partido de Eanes roubou 45 deputados ao PS. Se é isso que ele quer, está no bom caminho. A Direita agradece.

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LONGE DA COMPORTA

 
Natália Faria, no Público. Não é opinião. É uma notícia.  —  «Há grávidas que chegam aos serviços de urgência dos hospitais com fome. No Hospital de Pedro Hispano, em Matosinhos, há mulheres que chegaram a ficar internadas “um ou dois dias apenas porque tinham que se alimentar”, segundo adiantou o director do serviço de ginecologia e obstetrícia daquele hospital, Pedro Tiago, à Rádio Antena 1. No Hospital Amadora-Sintra há também casos de bebés que não recebem alta porque as famílias não têm condições para os acolher. [...]» Então o ajustamento não foi um sucesso?

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sábado, Julho 12, 2014

ÓBVIO ULULANTE

 
Seguro a afundar o PS. Hoje no Expresso: PSD+CDS=34,1%. PS=32,5%. Daqui a um ano será muito pior. Clique na imagem.

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O AGUJERO

 
Nunca um banqueiro português apareceu na capa de El País, mas o matutino de Madrid anda há dias a dissecar o caso BES. Os bimbos do BPN não comoveram a imprensa internacional, mas agora é o próprio Gotha que está em xeque. Clique na imagem.

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sexta-feira, Julho 11, 2014

DERROCADA


No famoso domingo negro de 2 de Novembro de 2008, ainda sob os efeitos do crash de Wall Street (o colapso do Lehman Brothers, em Setembro, continuava a provocar ondas de choque dos dois lados do Atlântico), Sócrates reuniu o Governo por causa do BPN. Ficou decidido nacionalizar o banco, decisão que a Assembeia da República ratificou no dia 5. Entre essa data e Julho de 2011, já com Gaspar, o Estado injectou 5,3 mil milhões de euros no BPN. O Montepio propôs comprar o banco por 180 milhões de euros, mas Passos Coelho & Gaspar venderam-no aos angolanos do BIC, limpo de dívidas, por 40 milhões. A história é cabeluda a vários títulos, por envolver directamente o núcleo duro do PSD cavaquista. Mas nem os jornais de Badajoz se interessaram pelo assunto.

O caso do BES é diferente. Ontem, Wall Street e várias bolsas europeias sentiram o abanão. A derrocada do GES fez manchetes na imprensa internacional. A CNN ocupou o seu principal programa com o tema. O FMI emitiu um comunicado que, para efeitos práticos, é um remoque ao Banco de Portugal. Em poucas horas, o BES tinha perdido 600 milhões. Ao meio-dia, a CMVM proibiu a venda de acções. Nos restaurantes do costume, corria o rumor de que Bento podia desistir da coroação. Terça-feira, dia 15, é o dia anunciado do default do Espírito Santo Financial Group. Corre nos mentideros a probabilidade de um pedido de insolvência da ESI, a holding de topo da família. Angola prepara-se para tomar conta do BESA. Na Suíça e no Luxemburgo está instalado o caos. A PT está a desmoronar: perdeu mil milhões de euros num abrir e fechar de olhos. Granadeiro está por um fio. A todas estas, a dívida pública portuguesa entrou em turbulência. José Maria Ricciardi e vários analistas de mercado garantem que nada disto afectará os depositantes do BES. O BdP diz o mesmo em língua de pau: As imparidades são acomodáveis. A ver vamos. Eu, do BPN, só conhecia os anúncios do Figo. Mas com o BES tenho uma relação de mais de trinta anos.

O ponto é que o BES representa 20% do PIB nacional. Se cair, é 20% da economia portuguesa que colapsa. O Governo não pode continuar a assobiar para o lado.

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quinta-feira, Julho 10, 2014

VASSILI GROSSMAN


Hoje na Sábado escrevo sobre Bem Hajam!, de Vassili Grossman (1905-1964), caderno de apontamentos da viagem que o autor fez à Arménia no Outono de 1961, «enojado, aborrecido» com a indiferença dos intelectuais de Erevan. O livro descreve o quotidiano da Arménia soviética numa época em que surgiram os primeiros sinais do nacionalismo que conduziu à secessão de 1991. A prosa não agradou aos editores da revista Nóvi mir, que recusou o texto. Grossman é autor do mítico Vida e Destino, romance de 1959 sobre o cerco alemão a Estalinegrado, obra apreendida pelo KGB de que existem duas traduções portuguesas: uma de 1983, que passou despercebida, e a de 2011, saudada como se fosse a única.

Escrevo ainda sobre O Último Comboio Para a Zona Verde, de Paul Theroux (n. 1941), que prolonga Dark Star Safari. Se, no livro de 2002, a viagem era entre o Cairo e a Cidade do Cabo, desta vez é dali para Angola. Uma série de azares fizeram abortar o projecto inicial de ir até Timbuktu, no Mali. Sobre Angola, não poupa o governo, alheado das necessidades básicas da população. Entre outros exemplos, questiona a construção de um estádio de futebol no Lobito, uma cidade onde falta quase tudo. A prosa não é meiga mas é justa. O mau feitio e uma vida aventurosa (viveu no Malawi onde deu aulas e participou num golpe de Estado contra o Presidente Hastings Banda) fizeram de Theroux um autor de culto. Editou a Quetzal.

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terça-feira, Julho 08, 2014

POMPAS FÚNEBRES

 
Recebi hoje os primeiros exemplares de Pompas Fúnebres, colectânea de crónicas. O volume colige 48 das 63 que publiquei na revista LER entre Abril de 2008 e Janeiro de 2014. Seleccionei as que me parecem poder resistir ao crivo do tempo. Eventuais rasuras ou alterações de pormenor não beliscam o espírito original. O espectro de temas versados é muito amplo, e a sua relação de contiguidade tornaria fútil o inventário. Gosto especialmente da cartolina uncoated da capa, um trabalho do Love St. Studio. A Ulisseia, hoje integrada no grupo Babel, dispensa apresentações. Mas deixo aqui um agradecimento ao editor Vasco Silva e à excelente equipa que o rodeou: Ana Cunha, Rita Lynce e o revisor Sérgio Coelho. Em breve numa livraria perto de si. Clique na imagem.

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domingo, Julho 06, 2014

IR AO POTE

 
Em vez de promover um concurso público internacional para preencher os cargos de CEO e Chairman do BES, o Banco de Portugal combinou com a família Espírito Santo e com o principal acionista estrangeiro o casting da nova administração.

Vítor Bento, conselheiro de Estado nomeado por Cavaco Silva, será CEO a partir de amanhã (entretanto anunciou que vai renunciar à sinecura de Belém); Paulo Mota Pinto, deputado do PSD, membro do Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações da República (vulgo Secretas) e membro da comissão política da candidatura de Cavaco Silva, será Chairman; João Moreira Rato, também do PSD, antigo quadro do Lehman Brothers, do Goldman Sachs e do Morgan Stanley, actual presidente da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública, por nomeação de Vítor Gaspar, será administrador financeiro (CFO). Faço minha a pergunta de Pedro Santos Guerreiro: «Porque tinham de alambazar-se? O PSD tomou conta do BES?» O remake de 11 de Março de 1975 não faz sentido.

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sábado, Julho 05, 2014

A JOELHADA

 
O momento em que o colombiano Zuñiga pontapeia o brasileiro Neymar, fracturando-lhe uma vértebra e impedindo que o craque canarinho jogue nas próximas 6-8 semanas. O futebol de alta competição tornou-se um jogo de gladiadores, incompatível com o português suave.

[Imagem: foto de Leonhard Foeger para a Reuters. Clique.]

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quinta-feira, Julho 03, 2014

JUNG CHANG


Hoje na Sábado escrevo sobre A Imperatriz Viúva, de Jung Chang (n. 1952), a biografia de Tzu Hsi, mais conhecida por Cixi, mãe do único filho do imperador Xianfeng. A autora nasceu na China e aos 14 anos já era membro da Guarda Vermelha, mas em 1978 foi estudar para Inglaterra, doutorou-se em linguística, tornou-se cidadã britânica, casou com o historiador irlandês Jon Halliday e escreveu a autobiografia Cisnes Selvagens, que em 1992 a tornou conhecida em todo o mundo. Cixi, uma antiga concubina, governou a China durante décadas, tentando empurrar o império para a modernidade. Espírito aberto, permitiu (contra os áulicos) que o seu embaixador em Londres questionasse o sistema monárquico chinês por contraponto com o sistema parlamentar britânico. Tudo começou em 1861, ano da morte de Xianfeng, e da subida ao trono do filho de ambos, então uma criança de cinco anos. Cixi manobrou para obter o título de Imperatriz Viúva, desencadeou um golpe de Estado contra o Conselho de Regentes e tomou as rédeas do poder. Com minúcia, Chang explica a ascensão de Cixi, o protocolo da Cidade Proibida, a Guerra do Ópio, a ligação de Cixi com um eunuco, as reformas de 1898, os conflitos com as potências (Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Rússia), a guerra com o Japão, etc. A profusão de detalhes sobre a política e a cultura chinesa torna a leitura absorvente. O volume inclui portofolio fotográfico, sendo as fotografias de Cixi reproduzidas a partir dos negativos originais arquivados em Washington. Excelente.

Escrevo ainda sobre Histórias de Roma, do catalão Enric González (n. 1959). Com a habitual desenvoltura, González conduz os leitores nessa cidade que consegue manter «uma relação estritamente passiva com o tempo». Uma inteligente dosagem de informação, humor e fair play, faz o encanto dos seus livros. Publicou a Tinta da China.

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SOPHIA NO PANTEÃO


Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) foi ontem trasladada para o Panteão Nacional. Vários canais por cabo deram a cerimónia em directo. Tudo começou com uma missa privada na Capela do Rato, oficiada pelo Patriarca de Lisboa e pelo padre José Tolentino Mendonça. Segundo o Público, estiveram presentes os filhos de Sophia, mas também Maria Barroso, Eduardo Lourenço, Artur Santos Silva e o advogado José Miguel Júdice.

No Panteão estavam duzentos convidados: primeiro-ministro, presidente do Tribunal Constitucional, presidente da Câmara de Lisboa, presidente do Centro Nacional de Cultura, o antigo presidente Ramalho Eanes, ministros, deputados, diplomatas, oficiais generais, etc. O coro do Teatro Nacional de São Carlos cantou o Hino Nacional e o Magnificat de Bach. Bailarinos da Companhia Nacional de Bailado dançaram. José Manuel dos Santos, antigo curador da Fundação EDP, Assunção Esteves, presidenta da Assembleia da República (elidindo sempre o Andresen), e Cavaco Silva, leram discursos. Em vez de envolver a urna por inteiro, como devia, a Bandeira Nacional esvoaçava. Uma guarda de honra da GNR enfatizou a coreografia. Duvido que Sophia aprovasse.

[Imagem: foto de Enric Vives-Rubio, Público. Clique.]

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quarta-feira, Julho 02, 2014

CITAÇÃO, 494


Ferreira Fernandes, Esperanças e passo atrás, ontem no Diário de Notícias. Excerto, sublinhado meu:

«Aponta-se para o Mundial e os tolos olham para a bola. Mas quem está a falar de bola? Blaise Matuidi nasceu em Toulouse, França, de pais angolanos fugidos à guerra civil. Garotinho, foi com os pais para Fontenay-sous-Bois, no leste parisiense. [...] As pátrias são as da infância e felizes os que transportam essa pátria inicial pela vida fora. E felizes são os que, filhos dos tantos êxodos do séc. XX, tiveram uma pátria que os acolhesse e souberam querê-la. O filho dos Matuidi teve essa sorte, em Fontenay confirmou-se como francês que era pelo nascimento e vida. [...] Que ontem Matuidi jogasse pela sua terra é o mundo que avança. Que 16 dos 23 jogadores argelinos não jogassem pela França onde nasceram e viveram, mas pela Argélia dos seus pais, é um passo atrás. Pessoas, ideias, países, alguma coisa falhou ali.»

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terça-feira, Julho 01, 2014

TRÁFICO DE INFLUÊNCIA

 
Depois da prisão do seu advogado, ocorrida ontem, Sarkozy foi preso hoje de manhã em Nanterre, sob a acusação de «trafic d’influence et violation du secret de l’instruction». O Office Central de Lutte contre la Corruption et les Infractions Financières et Fiscales (OCLCIFF) acusa-o de, enquanto Presidente, ter obtido informações sobre a evolução de vários processos judiciais. A foto é do Nouvel Obs. Clique para ver com maior detalhe.

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segunda-feira, Junho 30, 2014

PEDRO MARQUES LOPES

 
Na edição da Sábado do passado dia 26, escrevi sobre Suaves Portugueses, de Pedro Marques Lopes (n. 1966). Mais do que o título, o subtítulo  —  A Vidinha com um sorriso  —, diz quase tudo sobre a personalidade do autor. Num país de cronistas cinzentos, Marques Lopes distingue-se pela nitidez da inscrição, sem vénia ao politicamente correcto ou a qualquer tipo de alinhamento ideológico. Homem de Direita com o coração à esquerda, acaba de juntar em volume parte das crónicas que publicou na imprensa. Há de tudo neste conjunto de textos desatinados: futebol, mulheres, o Porto, televisão, música, golfe, Lisboa, orgasmos, carros, tiques de classe, Leonardo Padura, os filhos, mais uma dúzia de temas, sem esquecer alguns dos seus pares: «Lembro-me sempre do Superpateta quando leio...». O tom geral é de derrisão, isenta de acrimónia, reflectindo as idiossincrasias pessoais de quem não pede licença para dizer o que pensa. A política passa nos interstícios da prosa, não sendo nunca o foco central. Contudo, “25 de Abril Sempre” tem uma clareza, e uma quota de emoção, que surpreenderá muita gente. Considerada um género menor, a crónica vive da ambiguidade que se estabelece entre a fronteira do ensaio e do conto, num caso e no outro à boleia de memórias, por vezes difusas, mas impressivas. Estas valem bem duas horas de leitura.

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domingo, Junho 22, 2014

INTERVALO


A partir de amanhã, este blogue fará um intervalo de alguns dias. Até breve.

[Imagem: Monólogo, de Ana Vidigal. Clique.]

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quinta-feira, Junho 19, 2014

O ÓBVIO ULULANTE

 
Em documento divulgado hoje à tarde, Almeida Santos, Jorge Sampaio, Manuel Alegre e Vera jardim pedem uma clarificação rápida da situação no PS: «A grave situação do país precisa de um PS em condições de exercer plenamente as suas responsabilidades como principal partido da oposição, tendo em vista a criação de uma alternativa política capaz de mobilizar os portugueses para um novo ciclo com mais esperança, solidariedade e coesão social [...] Um partido não existe para si mesmo. A sua prioridade é sempre Portugal.» Os quatro alertam os órgãos nacionais do PS: «Não se enganem de adversário...» É o óbvio ululante.

[Imagem: plano da plateia do Teatro Tivoli, ontem à noite. Clique.]

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DAVID LEAVITT

 
Hoje na Sábado escrevo sobre Dois Hotéis em Lisboa, o romance mais recente do americano David Leavitt (n. 1961). Leavitt tinha apenas 23 anos quando, com a colectânea de contos Dança de Família, fez uma estreia fulgurante na ficção de língua inglesa. Dois Hotéis em Lisboa faz o relato do encontro de dois casais americanos na capital portuguesa no ano já distante de 1940. Em quatro páginas, Leavitt cita uma extensa bibliografia, na qual se inclui a obra Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial, de Irene Flunser Pimentel. É notória a desproporção entre a historieta e o inventário de fontes eruditas, memórias, diários, correspondência, artigos de imprensa e obras de ficção. Por exemplo, o perfil de Edward e Iris Freleng (um dos casais ficcionados), mais a cadela Daisy, foi inspirado num livro de Eugene Bagger. Tanta erudição junta torna o cenário postiço, provocando enfado no leitor. Leavitt quis fazer uma montra da Exposição do Mundo Português: ele é o cheiro a peixe das varinas, a Pastelaria Suíça, os pavões do Castelo de São Jorge, o relógio do British Bar, o Casino do Estoril, as queijadas de Sintra, etc. Não havia necessidade. Tendo como pano de fundo o êxodo dos judeus ao regime nazi, e os imprevistos associados à sua passagem por Portugal, devido ao crivo da “neutralidade” de Salazar, à dificuldade na obtenção de vistos e à escassez de transportes, o romance centra-se na relação homossexual estabelecida entre o marido de Iris Freleng e o marido de Julia Winters. Nesse particular, Leavitt escreve páginas consistentes sobre as epifanias de Pete e a análise do modus operandi do marido de Iris: «Edward era imune a jovens atraentes. Pelo contrário, o que exercia sobre ele um fascínio fatal era o toque desajeitado de um homem vulgar e imperfeito.» O que mata o livro é a ambição historicista. Também surpreende que o autor, um dos expoentes da literatura gay norte-americana, utilize uma imagem mole ao comparar uma erecção com a cauda alçada de um gato.

Escrevo ainda sobre Quando Éramos Mentirosos, de E. Lockhart, pseudónimo de Emily Jenkins. O plot gira em torno de uma família patrícia da Nova Inglaterra, com casa de Verão numa ilha privada em Martha’s Vineyard, ou seja, o enredo-tipo de alguém (é o caso da autora) que estudou em Vassar, um feudo exclusivo da alta-sociedade americana há mais de 150 anos. Não é forçoso que assim seja, mas Lockhart não é Mary McCarthy, outra vassariana célebre. Aquilo que podia ser o retrato mordaz das virtudes públicas e dos vícios privados das famílias “perfeitas”, resulta, na escrita melíflua de Lockhart, num cupcake de cores berrantes. Não chega gostar de «brincar com as palavras», como confessa a narradora. Publicou a Asa.

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RESGATAR O PS

 
 
Ontem de manhã foi o almoço a convite do American Club, e à noite a formalização da candidatura a secretário-geral do PS. O partido não pode morrer às mãos de Seguro, alguém que, como disse Soares no Tivoli, em três anos que leva de líder (auto-anulado), “nunca falou de socialismo”. Bem podem os apparatchik invocar estatutos e adiar o inadiável. António Costa veio para ficar.
[A foto superior é de Nuno Ferreira Santos, para o Público. Clique.]

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segunda-feira, Junho 16, 2014

UM PAÍS DE SUCESSO

 
Três anos depois do resgate da dívida, o Fisco penhora uma média de 189 casas por dia. Os dados são do BdP. A manchete é do Diário de Notícias. Clique na imagem.

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sábado, Junho 14, 2014

O CISMA


Apoiado nos estatutos, o Conselho de Jurisdição do PS decretou a impossibilidade de um congresso extraordinário eleger um novo secretário-geral. Apenas um Congresso regular o poderá fazer. Uma curiosa decisão, tendo em vista que a direcção do partido aprovou primárias (e até fixou a data respectiva) para a eleição do candidato a primeiro-ministro, sendo certo que os estatutos do partido não autorizam, nem sequer prevêem, tal procedimento.

O país não percebe que, com a sua teimosia, António José Seguro permita que o PS seja esfrangalhado a céu aberto. Faltando mais de três meses para as famosas primárias, tudo pode acontecer. Não esquecer que, neste momento, o PS tem um grupo parlamentar cindido: 45 dos 74 deputados foram capazes de dar a cara e o nome em documento assinado que doravante os compromete (sete são vice-presidentes da bancada). E resta saber quantos, dos 29 que não assinaram, fizeram saber que... podes contar comigo, pá! Num país de rolhas, isto pode acabar da pior maneira.

Se António José Seguro acredita ter o partido com ele, não tem que recear primárias ou directas no mais curto prazo de tempo. Devia ser o primeiro a querer esclarecer o Cisma.

Negando a António Costa a possibilidade de um confronto em tempo útil, os apparatchik do Rato estão a conduzir o PS para um beco sem saída.

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