sexta-feira, 28 de agosto de 2015

LUXO NA RIBEIRA

Há dois anos foi a Central Station, um conglomerado de startups, a ocupar parte do imenso edifício cor-de-rosa da Praça D. Luiz onde a partir de 1953 funcionou a Central Telefónica e Telegráfica de Lisboa, que mais tarde passou a Estação Central de Correios. Agora vai ser um condomínio de apartamentos de luxo assinados por um gabinete de arquitectos famosos. A 50 metros, o edifício ao lado da Roche Bobois sofre idêntica intervenção. É impressão minha ou de repente virou tudo milionário?

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

PRIMEIRO PASSO


Merkel deu o primeiro passo: suspendeu as regras, em vigor na UE desde 1990, que filtram o acesso de migrantes. Deste modo, a Alemanha abre as portas aos refugiados da Síria, do Iraque, do Afeganistão, etc., qualquer que tenha sido o método utilizado por eles para chegarem às fronteiras alemãs. A França e a Itália ficam, digamos, obrigadas a fazer o mesmo. A imagem é do Independent. Clique.

CONVINHA REEDITAR, 4


A maior parte dos portugueses nunca ouviu falar de João Pedro Grabato Dias, pseudónimo literário do pintor António Quadros (1933-1994), que começou por ser professor da Escola Superior de Belas Artes do Porto, depois andou por Paris como bolseiro da Gulbenkian, para de seguida radicar-se em Lourenço Marques, onde viveu durante vinte anos (1964-84) e se revelou poeta em 1968. Toda a obra foi publicada em Moçambique. António Quadros, de seu nome completo António Augusto Melo de Lucena e Quadros, é autor da letra de alguns dos maiores êxitos de Zeca Afonso, que também viveu em Moçambique (1964-67), onde, por intermédio de Rui Knopfli, conheceu e fez amizade com o futuro autor de Qvybyrycas.

Com extenso e corrosivo prefácio de Jorge de Sena, que em 1972 andou por Moçambique, Qvybyrycas foi publicado para assinalar os 400 anos da publicação de Os Lusíadas. António Quadros, já então autor de quatro livros assinados como Grabato Dias, publicou a obra com o heterónimo Frei Ioannes Garabatus.  (Em 1975, no auge da descolonização, inventaria outro, Mutimati Barnabé João, suposto guerrilheiro da Frelimo e autor de Eu, o Povo.) Aos 10 cantos e 1102 estâncias do poema de Camões, Garabatus opôs 11 cantos e 1180 estâncias. Esse acréscimo de um canto e 78 estâncias não foi inocente, como Sena explica com detalhe. Não há equivalente na poesia portuguesa mas a crítica universitária assobiou para o lado e a outra não deu por nada.

Em Portugal, Qvybyrycas foi reeditado em 1991, tendo o seu Terceiro Canto sido impresso em 1998 num dos livrinhos da Expo 98. É talvez chegada a hora de voltar a dar o livro à estampa. Clique na imagem.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

PESADELO

Só em Julho, cerca de 110 mil pessoas atravessaram o Mediterrâneo para entrar na Europa. Em 2014 foi um terço deste número. É a maior vaga migratória dos últimos 70 anos. Até há poucos meses vinham da Líbia, embora nos barcos da morte com destino a Lampedusa viessem refugiados de outros países do Magreb. Agora tudo mudou. Oriundos da Síria, do Iraque, do Afeganistão, da Eritreia, do Sudão e do Paquistão, dezenas de milhares de refugiados (um estatuto que não faz sentido aplicar aos paquistaneses) atravessaram a fronteira da Grécia com a Macedónia, onde foram metidos em comboios com destino à Sérvia. Vão esbarrar no muro que a Hungria colocou na frontreira. Ao pé disto, o que se passa em Calais e no Túnel da Mancha é pouco mais que um faits divers. Merkel e Hollande vão hoje discutir o assunto.

HERMÍNIO MARTINS 1934-2015


Morreu em Oxford o sociólogo Hermínio Martins, «o único cientista social português da sua geração conhecido na comunidade científica internacional», na síntese de António Costa Pinto. De tal modo que hoje é um nome central das ciências sociais no Reino Unido. Natural de Lourenço Marques, deixou Moçambique no início dos anos 1950 para estudar na London School of Economics, onde foi aluno de Popper e Michael Oakeshott. Professor em várias universidades, como Leeds e Harvard, fixou-se em Oxford, tendo leccionado no St Antony’s College entre 1971 e 2001. O óbito terá ocorrido no passado dia 19, mas só agora foi divulgado em Portugal. O essencial da obra está publicada em língua inglesa, mas talvez fosse altura de reeditar Hegel, Texas e Outros Ensaios de Teoria Social (1996) e Classe, Status e Poder e Outros Ensaios sobre o Portugal Contemporâneo (1998). Suponho que Experimentum Humanum. Civilização Tecnológica e Condição Humana (2011) não esteja esgotado. E, claro, aguardar a publicação de um volume inédito, escrito em inglês, onde Martins cruza três datas-chave da vida portuguesa: 5 de Outubro de 1910, 28 de Maio de 1926, 25 de Abril de 1974. A imagem é do site do St Antony’s College. Clique.

sábado, 22 de agosto de 2015

PRIORIDADES


É impressão minha ou a nossa querida imprensa de referência omite o atentado de ontem no Thalys que circulava entre Amesterdão e Paris? Importante mesmo é o festival Vodafone que se realiza nas imediações do Corno do Bico. A imagem é do Libération. Clique.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

DAMON GALGUT


Hoje na Sábado escrevo sobre Verão Ártico, do romancista e dramaturgo sul-africano Damon Galgut (n. 1963), que neste livro ficciona parte da vida de E. M. Forster. Forster é um nome central da literatura de língua inglesa, autor de romances que o cinema popularizou — entre vários, sirva de exemplo Passagem para a Índia, de David Lean —, livros de viagem, biografias, o libreto de uma ópera de Britten, bem como colectâneas de crítica literária e ensaios, entre eles o imprescindível Aspects of the Novel, de 1927. Galgut faz um compósito dos vários períodos em que o autor de Howards End viveu na Índia, em especial a época em que foi secretário pessoal do marajá de Dewas. O romance subsume informação dos diários e da correspondência de Forster, com envios à respectiva obra. Importa referir que Arctic Summer é o título de um romance que Forster começou a escrever em 1909 mas nunca concluiu. O plot gira em torno da condição homossexual de Forster: equívocos, aventuras a coberto da permissividade que o cargo permitia, paixão não correspondida por Syed Ross Masood (e outros), etc. Edward Carpenter e Kavafis surgem citados em nome próprio, na medida em que Forster privou com ambos. Longe de ser o melhor livro de Galgut, Verão Ártico lê-se com agrado. Três estrelas.

RUÍDO

Francamente, não percebo a tese do ruído. Essa que coarcta o direito de emitir opinião sobre as Presidenciais antes das Legislativas. Lembrar que Jorge Sampaio (contra a vontade de Guterres) anunciou formalmente a sua disposição em candidatar-se à Presidência da República em Fevereiro de 1995, onze meses antes das eleições Presidenciais que venceria logo à 1.ª volta (com 53,9% dos votos, derrotando Cavaco) e, ponto importante, oito meses antes das eleições Legislativas de Outubro de 1995 que deram a vitória a Guterres. Et pour cause...

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

CONVINHA REEDITAR, 3


Thomas Edward Lawrence, que passou à História como T. E. Lawrence (1888-1935), ou mais simplesmente como Lawrence da Arábia, foi tradutor de Homero, arqueólogo, militar e agente secreto britânico durante a Revolta Árabe que durou de Junho de 1916 a Outubro de 1918, no Império Otomano. A posteridade fixou o seu nome como autor de Seven Pillars of Wisdom, o livro que escreveu entre 1919 e 1922, ano de publicação da primeira versão da obra, destinada a pouco mais de cem assinantes. O livro que a partir de 1926 foi traduzido e publicado em dezenas de países é uma versão reduzida dessa edição de Oxford. Em 1997, o biógrafo de Lawrence, Jeremy Wilson — Lawrence of Arabia: The Authorized Biography of T. E. Lawrence, 1990 — deu à estampa aquela que é considerada a versão canónica de Seven Pillars of Wisdom, sem as rasuras dos anos 1920.

Razão acrescida para reeditar Os Sete Pilares da Sabedoria que a Europa-América publicou em 1989 (a partir da edição de 1926), de preferência com nova tradução e uma mancha gráfica menos compacta.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

DISCURSO DIRECTO, 7


Manuel Alegre, hoje no Diário de Notícias. Excertos, sublinhado meu:

«Era minha intenção não me pronunciar sobre presidenciais antes das legislativas, que são, para os socialistas, a prioridade das prioridades. Mas algumas afirmações feitas ultimamente sobre a pessoa de Maria de Belém obrigam-me a tomar posição. [...] Maria de Belém é uma socialista substantiva, com uma longa biografia política e provas dadas na luta pelos valores da liberdade, pelos direitos sociais, pela igualdade de género e pelos serviços públicos que simbolizam a natureza progressista e igualitária da nossa democracia: Serviço Nacional de Saúde, escola pública, Segurança Social. Sabe-se quem é, que posições tomou, que causas defendeu, em quem votou. A sua atividade, tanto nas lutas académicas anteriores ao 25 de Abril como no processo da construção da democracia, foi sempre orientada pela recusa de qualquer forma de ditadura, pela defesa da liberdade e da justiça social. É tempo de Portugal ter uma mulher na Presidência da República. Muitas das críticas a Maria de Belém partem de preconceitos sexistas e machistas. Não há proprietários da esquerda nem monopólio de candidaturas. [...] Apoiarei uma candidatura de Maria de Belém porque não me considero órfão de ninguém nem admito que o PS e a esquerda se resignem a perder a eleição presidencial. [...]»

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

E O GRUPO DOS TREZENTOS?

Cito o DN — «Hoje, um em cada cinco trabalhadores (19,6%) ganha o salário mínimo nacional de 505 euros por mês. Em 2011, antes das medidas de ajustamento impostas pelos credores, apenas 11,3% recebiam a remuneração base, então de 485 euros. É um aumento de 73,6% segundo os números do Ministério da Economia

Eu gostava era de conhecer a percentagem dos que ganham ABAIXO do salário mínimo nacional, com o argumento de que o horário de trabalho é inferior a 40 horas por semana. E não estou a falar de trabalhadores de call center ou de lojas de bairro ou de restaurantes étnicos. Estou a falar de empresas de primeira linha. Quantos são? Isso é que era interessante saber.

FUTUROLOGIA

Admitindo com boa vontade que o resultado das próximas legislativas corrobora os números das sondagens conhecidas até ao momento, e que os indecisos diminuem, e que o voto útil reforça a bipolarização, um exercício de futurologia poria o PS com 41% dos votos e a coligação PAF com 37%. Portanto, mais votos para o PS. Porém, a distribuição desses votos pelos círculos (não esquecer as ilhas e a emigração) poderia dar 108 deputados à coligação PAF e 107 ao PS. Mais votos, menos deputados, não é uma impossibilidade. Um imbróglio.

domingo, 16 de agosto de 2015

BRASIL, HOJE

Quem tem familiares ou amigos a viver no Brasil há mais de 30 anos e, por essa razão, recebe informação detalhada da realidade local, percebe que o abandalhamento atingiu níveis homéricos. Se não renunciar, Dilma está a um passo do impeachment. Igual percepção têm os que lêem a imprensa brasileira com regularidade. Hoje, domingo, exigindo a destituição da Presidente, realizam-se manifestações em cerca de 200 cidades. Os mais informados sabem que substituir Dilma por Aécio Neves teria como consequência uma forte guinada à Direita para trocar os bolsos à propina. Michel Temer seria sempre uma solução de intervalo. Fui ver o que é que o Público pensa de tudo isto (o Público é um jornal que tem sempre jornalistas a voar para o Rio na cola de escritores muito lá de casa) e descubro o quê? A preocupação número um dos portugueses é o cinema francês, a quem o jornal dedica hoje dez páginas (4-13), entre reportagem, entrevista, gráficos, estatísticas e opinião. Sobre Dilma nem uma linha. Então ficamos assim.

sábado, 15 de agosto de 2015

AGOSTO

Não me recordo de um Agosto tão deprimente como o actual. A falta de pudor dos media e, em especial, da televisão, recupera tempos ominosos. Vivemos praticamente como há 50 anos. Em Agosto de 1965 eu tinha 16 anos e vivia em Lourenço Marques. Tinha estado em Portugal uma única vez, de férias, entre Julho de 1964 e Fevereiro de 1965. Não gostei do que vi. É verdade que os jornais de LM não podiam dizer mal de Salazar, permitindo-se censurar intervenções de Adriano Moreira, que fora ministro do Ultramar (1961-63) e responsável pela abolição do Estatuto do Indigenato. Mas ninguém tinha ilusões. Os campos estavam bem definidos: éramos nós e eles. Agora vivemos numa sopa da pedra. O povo que enche os festivais da sardinha e os Woodstocks domésticos só não tem é um Pessa à sua altura.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

HÉLIA CORREIA


Hoje na Sábado escrevo sobre O Separar das Águas e Outras Novelas, de Hélia Correia (n. 1949), que junta neste volume o livro de estreia — o que dá o título ao conjunto — com Villa Celeste e Soma, três novelas de 1981, 1985 e 1987, respectivamente. Era bom que o Prémio Camões, que este ano lhe foi atribuído, contribuísse para chamar a atenção para a obra de uma autora avessa a holofotes e uma das grandes vozes da literatura portuguesa contemporânea. Os que descobriram Hélia Correia há poucos anos, fosse num romance como Adoecer, ou nos poemas magníficos de A Terceira Miséria, queixando-se da dificuldade em encontrar os livros mais antigos, podem agora começar do princípio. Quando pela primeira vez se publicou, O Separar das Águas trouxe consigo uma voz singular, devedora de algum realismo fantástico, porém isento de mimetismo. A obra futura deu outra tonalidade à dimensão profética, mas, por enquanto, toda a ênfase fará de Vilerma um retrato do estupor do país que vivia entalado entre o estertor da República, as aparições de Fátima e o triunfo dos bolcheviques. Uma escrita rica de harmónicas acentua a polifonia do discurso narrativo, qualquer que seja a realidade ficcionada (e neste caso são três, sem correlação entre si) pela trilogia. Exemplar. Quatro estrelas e meia.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

CONVINHA REEDITAR, 2


Tinha 17 anos quando pela primeira vez li A Bastarda, de Violette Leduc (1907-1972). É daqueles livros — o exemplo extremo será Guerra e Paz, de Tolstoi — que temos de voltar a ler depois dos 40. Romance autobiográfico avesso a todas as categorias morais, A Bastarda «mostra com excepcional clareza que uma vida é a conquista de um destino por uma liberdade assumida.» São palavras de Simone de Beauvoir no prefácio da obra. Leduc conquistou esse destino. Oriunda das classes trabalhadoras, filha ilegítima, lésbica assumida, estranha ao beau monde, torna-se amiga de Maurice Sachs, por intermédio de quem conhece Beauvoir, Sartre, Camus, Cocteau, Genet, Sarraute, Jouhandeau e outros. Constrói uma obra parcimoniosa: entre 1946 e 1971 publica dez livros, sendo A Bastarda o mais importante. A tradução da romancista Natália Nunes que vemos na imagem foi publicada em 1966 (a capa só podia ser de João da Câmara Leme). Sejamos claros: esta obra-prima tem de voltar às livrarias.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

MEMÓRIA CURTA

As pessoas têm memória curta. Em Julho de 1985, Soares surpreendeu o país ao anunciar a sua candidatura a Presidente da República. Meses depois, com o apoio de Eanes e do PRD, Zenha entrou na corrida. Ângelo Veloso, candidato do PCP, desistiu a favor de Zenha antes da 1.ª volta. E havia também Maria de Lourdes Pintasilgo. Dito de outro modo, quatro candidatos de Esquerda, sendo dois da cúpula do PS. Na 1.ª volta, os resultados foram respectivamente de 25,4% / 20,8% / e 7,3% [Soares-Zenha-Pintasilgo]. Na 2.ª volta, Soares venceu Freitas do Amaral. O pior que nos podia acontecer agora era eleger um Messias. Contudo, a contradição está instalada. As pessoas que aplaudem as «nano-seitas» (como lhes chama o Rui Zink) travestidas em partidos políticos são as mesmas que arrancam os cabelos de cada vez que aparece ou ameaça aparecer alguém disposto a concorrer às Presidenciais de 2016. Não há necessidade.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

EUROSONDAGEM


Resultados da Eurosondagem divulgados esta tarde pelo Expresso.
Clique na imagem.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

KAREN JOY FOWLER

 
Hoje na Sábado escrevo sobre Estamos todos completamente fora de nós, de Karen Joy Fowler (n. 1950), romance que ganhou no ano passado o prémio PEN/Faulkner na categoria de ficção. Já se sabia que Fowler defende os direitos dos animais, mas a autora desconcertou meio mundo ao fazer de um chimpanzé-fêmea a “irmã” de Rosemary, a narradora desta história sobre uma família pouco convencional: «Passei os primeiros dezoito anos de vida identificada por este único facto: ter sido educada com um chimpanzé.» Dito de outro modo, Fern não era um animal de estimação, era membro da família, «a irmãnzinha de Lowell, a sua sombra, a sua fiel companheira.» Lowell é o irmão humano de Rosemary. O mesmo se diga de Mary, outro chimpanzé. Estamos no limite do racional, mas a narrativa nunca derrapa, porque Fowler tem uma escrita segura, culta, pontuada de compaixão, humor e extrema racionalidade. Não é por acaso que a datação dos capítulos traz indexados alguns factos que ajudam a contextualizar o ar do tempo (entre outros exemplos, a crise dos reféns na Embaixada dos Estados Unidos em Teerão). Digamos que uma espécie de magia faz de cimento do plot. E tudo gira em torno de Fern, cuja lembrança percorre os anos de crescimento de Rosemary. O punctum é a relação dos humanos com os animais, sendo Fern uma metáfora das ambiguidades decorrentes. Quando Fern desaparece, Rosemary (então com cinco anos) passa a viver atormentada, longe de supor, como descobrirá mais tarde, que a “irmã” não fora levada para uma quinta, mas sim para um laboratório universitário onde o doutor Uljevik a meteu numa jaula com outros chimpanzés (ela que nunca convivera com os seus iguais), pois «tinha de aprender qual era o seu lugar, tinha de perceber o que era.» São ínvios os caminhos da psicologia comportamental. Na realidade, o livro disseca a questão sempre escorregadia do direito à identidade. Rosemary é adulta no momento em que a história é narrada. Lowell foi preso pelo FBI por se opor às experências com orcas. Fern persiste uma ferida aberta. Convenhamos que Tolstoi fez a síntese perfeita: «cada família infeliz é infeliz à sua maneira.» Tudo isto roçaria o nonsense não se desse o caso de Fowler ser uma autora de recursos sólidos. Um dos expedientes assenta na citação de filmes: eles explicam os estados de apatia, euforia ou disforia. No capítulo Sete dá-se o reencontro dilacerante de Fern com Rosemary. Publicou a Jacarandá. Cinco estrelas.

Escrevo ainda sobre O Estrangeiro, de Albert Camus (1913-1960), autor duplamente estrangeiro à intelligentsia francesa, facto que não o impediu de construir uma das obras mais marcantes do século XX. Foi agora reeditada a novela que assinalou o reconhecimento que teve o seu corolário em 1957, ano em que recebeu o Prémio Nobel. Este homem nascido na Argélia, que só conheceu o pai em fotografia, teve contra si o estigma da identidade pied noir, da exclusão social, da tuberculose que o impediu de ser futebolista e (mais tarde) de passar na agregação para professor de filosofia, do combate sem tréguas que o Partido Comunista francês lhe moveu a partir de 1951, pagou caro o ónus da coerência ideológica: a sua morte aos 46 anos teria sido consequência de um atentado encomendado ao KGB por Dmitri Shepilov. O Estrangeiro é Meursault, narrador do absurdo: um homem que o tribunal condena à guilhotina não por haver assassinado um árabe, mas pela «insensibilidade de que deu provas após a morte da mãe num asilo: «Que me importava se, acusado de um crime, era executado por não ter chorado no enterro da minha mãe?» A história do checo morto à martelada pela mãe e pela irmã (Meursault reflecte sobre isso na solidão da cela) serve de parábola do sem sentido da existência. Edição Livros do Brasil. Quatro estrelas.

IMPORTA-SE DE REPETIR?

«[...] nenhum eleitor pode aceitar, sem náusea, que um ex-primeiro-ministro movimente, furtivamente, avultadas verbas através de envelopes.» Quem o escreve é Viriato Soromenho Marques, hoje, no Diário de Notícias.  Como tenho VSM na conta de homem informado, uma asserção de tal calibre só pode decorrer da sentença de um tribunal (supondo que não foram extintos) transitada em julgado. Ando mesmo distraído, porque até a acusação que terá dado lugar a julgamento me passou ao lado.